Música + Informação

1° Grito Alternativo

Punknet | 14/05/2013 | Comentários desativados em 1° Grito Alternativo | Matérias
Suavemente

Suavemente por: Jean Silva – @jeanfotosilva

Domingo (12) de Dia das Mães, que mobilizou centenas de filhos desnaturados para conferir os shows da primeira edição do Grito Alternativo, no Espaço Lux, em São Bernardo do Campo. Mas acho que antes de tudo, é preciso esclarecer algumas coisas para a galera desinformada que está apedrejando o evento. Atrasou muito? Sim. Alguns shows tiveram um setlist minúsculo devido à falta de tempo? Sim. Muita gente teve que ir embora antes de acabar porque não teria como voltar para casa? Também sim. Mas é muito fácil dar um de revoltado no Facebook criticando a organização sem saber o que de fato aconteceu. O atraso foi por conta da equipe de som e iluminação, que não cumpriu o horário combinado e, obviamente, a produção do festival não estava contando com isso.

Line-up escolhido a dedo, inclusive as atrações de abertura, que raramente são muito boas em festivais desse porte. Festivais esses que costumam exigir uma cota absurda de vendas de ingressos das bandas secundárias, coisa que não aconteceu no Grito Alternativo. Foi a primeira edição. Foi uma primeira tentativa de mostrar que a cena ainda está viva no ABC. Falhas existem para serem corrigidas. Se as próprias bandas souberam compreender e lidar com o ocorrido, acho que resta ao público fazer o mesmo.

Attra

Attra por: Jean Silva – @jeanfotosilva

Duas horas depois do horário previsto, a banda Suavemente deu início aos trabalhos do dia, para uma plateia bem reduzida. Aliás, ao invés de só ficar reclamando, as pessoas deveriam colar cedo nos eventos e prestigiar as bandas desde o início. E colar cedo é entrar e assistir, não ficar bebendo na calçada. Enfim, os caras abriram com “Fugere Urbem” e “Beach Beat”, seguidas de “Gruvi Quântico”, cover de Forfun. Som bem feito, que prendeu a atenção de quem estava presente.

O repertório contou também com “Tempo Perdido”, do Legião Urbana, banda que eu desgosto bastante e acho literalmente perda de tempo, mas no fim das contas a versão deles ficou legal. Após “Nossa Voz”, Lucas colocou alguns adereços e anunciou que a próxima música era dedicada ao Marcos Feliciano. “Esse cara andou falando de uma banda que a gente gosta”, disse o vocalista antes de iniciar “Robocop Gay”, do Mamonas Assassinas. A performance animou o público, assim como “Fim de Tarde”, que fez o encerramento.

Dead Stella

Dead Stella por: Jean Silva – @jeanfotosilva

Na sequência, subiu ao palco a banda Attra, fazendo um show só com composições próprias. “Da Luz”, “Cada Passo Que Eu Der” e “Ilusão” deram um bom ritmo à apresentação. Ainda que o pessoal da pista permanecesse parado, o som do grupo foi aprovado. “Assumo Eu” e “Sempre Confiar” foram ainda melhor, mas o tempo era curto e eles deram lugar para a próxima atração.

Com um vocal gritado e um instrumental bem executado, o Dead Stella deu o seu recado. “Bar Country” e “História Pra Contar” abriram caminho para o cover de Misfits, com a faixa “Dig Up Her Bones”. Destaque para o baterista Vini, que mandou muito bem durante todo show. A galera que aos poucos ia chegando ao Lux foi entrando no clima e o ponto alto ficou por conta de “Tears Don’t Fall”, do Bullet For My Valentine.

Em meio a uma cegante fumaça de gelo seco, para desespero dos fotógrafos, o Nokaos fez o melhor show entre as bandas de abertura. Ska de altíssima qualidade, com o visual estiloso da banda dando um toque a mais. “Existem Coisas”, “Mentiras Mal Contadas” e “Ela Tá Querendo” empolgaram e colocaram os presentes para dançar.

Cristo Bomba

Cristo Bomba por: Jean Silva – @jeanfotosilva

Os caras deram todo o gás em cima do palco e sempre convocavam a galera para mais. “É uma satisfação representar o ska em um show de hardcore”, disse o vocalista Duda. “Rotina” e “Festa” melhoraram a vibe ainda mais. O fim, com “Superman Goldfinger” deixou o gostinho de quero mais. Muito bom, espero poder ver um show completo em breve.

O próximo grupo foi o Cristo Bomba, que também fez bonito. Som pesado e boa presença de palco deram o tom da apresentação. “Poucas Ideias” e “No Hope” abriram o repertório, seguidas por “Minefield” e “Failed In The Mission”. Apesar de bastante aplaudidos a cada faixa, a plateia seguia meio preguiçosa e não interagia muito. Por outro lado, no palco tinha energia de sobra. “At The Same Place”, “Knife With Both Ends”, “Scubay” e “A Diferença Entre Linces e Lobos” fizeram a sequência final.

Fechando a primeira leva de bandas, tivemos a Over Shad. “Epigrama”, “Sobre Homens e Lobos” e “Olhe Para o Lado” mostraram um hardcore competente. Dizendo que estava com saudades de tocar ali, o vocalista Thiago anunciou “Capítulos De Nossas Vidas”. Fôlego de sobra para manter o ritmo rápido e instrumental marcado. Para fechar, “Atalhos”, “Cinco Bombadinhas” e “Aspirinas”. Casa quase cheia e era a hora das bandas principais.

Hateen

Hateen por: Jean Silva – @jeanfotosilva

Com a música “Eu Voltei”, Koala (vocal), Sonrisal (guitarra), Leon (baixo) e Japinha (bateria) abriram o show do Hateen. Pela primeira vez até então, a pista ficou tomada, com todo mundo participando junto com a banda. “Obrigado Tempestade”, que dá nome ao disco mais recente do grupo, veio logo em seguida. “Parabéns para todas as mães, para a minha mãe e para a minha esposa que também é mãe”, desejou Koala, antes de dar início à “Quem Já Perdeu Um Sonho Aqui”, um dos hits do grupo, que contou com várias deixas para os fãs cantarem sozinhos, em alto e bom som.

“Não Vá” abriu uma roda, que só aumentou em “Uma Vida Sem Saudade”. Dizendo que estava muito feliz em poder dividir o palco com as bandas do festival, o vocalista seguiu com “Pra Sempre Nunca Mais” e “Você Não Pode Desistir”. O ápice do show veio com “1997”, cantada muito alto por todos que estavam ali. E, para finalizar muito bem, ainda mandaram um cover de Face To Face.

Garage Fuzz

Garage Fuzz por: Jean Silva – @jeanfotosilva

O tempo era curto e, emendando uma música na outra sem nem tempo para respirar, Alexandre (vocal), Wagner (guitarra), Fernando (guitarra), Fabricio (baixo) e Daniel (bateria) mandaram ver com o som do Garage Fuzz. Uma das maiores referências do hardcore nacional, a banda dispensa apresentações. Sem cerimônias, deram o ponta pé inicial com “Dear Cinnamon Tea”. Público cantou junto e acompanhou com palmas. Depois, “Shore Of Hope” abriu duas rodas, que acabaram se misturando e virou pancadaria geral.

Música após música, o clima esquentava cada vez mais e Alexandre fazia questão de sempre cantar pertinho dos fãs, fazendo todo mundo ter ainda mais vontade de participar junto com a banda. “Replace”, “Remains Wasted”, “Dying Trying”, “Observant”, Warm And Cold” e todo mundo parecia incansável.

Foi no show do Garage a primeira invasão ao palco, mas quando ia rolar o segundo mosh, um segurança resolveu atrapalhar e escorraçou o rapaz. Não demorou para a galera começar a gritar “hey, segurança, vai tomar no cu”. Pois é, não conhece o rock, isso que dá. Com o aviso de que poderia subir no palco e se jogar, ninguém mais interviu e o mosh estava liberado. Encerramento com “House Hules”. O show foi curto, mas seja em uma hora ou em poucos minutos, a banda quebra tudo e sempre deixa o palco com sensação de dever cumprido, com os fãs sempre pedindo por mais.

Bullet Bane

Bullet Bane por: Jean Silva – @jeanfotosilva

E, se você frequenta os eventos de hardcore por aí, com certeza já viu ao menos um show do Bullet Bane. Do começo do ano passado para cá, Victor (vocal), Fernando (guitarra), Danilo (guitarra), Rafael (baixo) e Renan (bateria) foram presenças garantidas nos mais diversos shows do underground nacional. Talvez os mais prejudicados com o cronograma apertado, eles tocaram apenas quatro músicas. Mas foram quatro músicas que fizeram valer a pena.

“Cyberwar”, “Dance Of Electronic Images”, “Combustion” e “Option To Repression” foram o suficiente para mostrar o porquê dos caras terem se destacado tanto na cena. Com muita vontade e com energia de sobra, eles fizeram a galera pular, moshar e cantar junto. Presença de palco indiscutível, principalmente do Victor, que não para um minuto sequer. Show mais do que bem recebido pelo público, que queria mais música, mas certamente o que não vai faltar é oportunidade de vê-los em breve.

Mukeka di Rato

Mukeka di Rato por: Jean Silva – @jeanfotosilva

Com todo o sarcasmo e pancadaria, Sandro (vocal), Paulista (guitarra), Mozine (baixo) e Brek (bateria) botaram a casa abaixo com a apresentação do Mukeka Di Rato.  Já com os primeiros segundos de “Rambo Quer Matar Che Guevara”, a pista virou um bate cabeça generalizado. “New Wave Índio”, “Auxilio Paletó” e a roda já era enorme. “Minhas Escolinha” e da-lhe mosh. Música atrás de música, falar menos para tocar mais e tinha que ter muito fôlego para acompanhar.

“Eu Sei Que Você Não Gosta De Fã”, “Mickey”, “Guri”, “Só Capeta Cuspindo Fogo”, “Heróis da Nação Falida” e o clima ficava cada vez mais insano. Letras gritadas, guitarra rápida, baixo distorcido e bateria bem marcada. Mistura perfeita, show foda. “Maconha”, “Praia Da Bosta”, “Frações, Refrações e Proporções”, “Animal”, “Quer ir? Vai”, “Chuva”, “Mente Positiva” e “Homem Borracha”. O rolê já tinha valido a pena, mas ainda valeria muito mais.

Dance of Days

Dance of Days por: Eduardo Lupianhez

O show do Dance Of Days começou com um discurso de Nenê Altro (vocal) a respeito dos preços exorbitantes de eventos como o Rock In Rio e elogiando quem tinha ido assistir aos shows desse domingo, fortalecendo a cena. “A voz é de vocês, tá na hora de colocar para fora, esse é o tempo de vocês”, completou, sendo muito aplaudido pela galera. Com Marcelo Verardi (guitarra), Fausto Oi (baixo) e Sam Rato (bateria) devidamente a postos, a banda começou com tudo, mandando a clássica “Adeus Sofia” logo de cara. É sempre um dos meus momentos favoritos nos shows deles. Voz dos fãs encobrindo a banda, festival de mosh a todo vapor. Lindo de ver.

“Com Você Não Vou Ter Medo” veio acompanhada das palmas dos presentes, assim como “Ao Que É Bom Nessa Vida”. Sintonia incrível e mais discurso. Após agradecer todo mundo, o vocalista falou um pouco sobre a cena do ABC. “Apoiem as bandas locais, o ABC precisa de vocês”, pediu. “A Valsa Das Águas Vivas” deu continuidade ao rock, seguida de “Interlúdio Para Um Bar De Estrada Por 33 Anos Fora Do Mapa”, “A Vitória Ou A Coisa Que O Valha” e “Vai Ver É Assim Mesmo”. O clima continuava foda.

Dance of Days

Dance of Days por: Eduardo Lupianhez

“Se Essas Paredes Falassem” foi anunciada como sendo contra o racismo e preconceito. Começo cantado só pelas vozes do público e um monte de gente no palco pulando de uma só vez. Doideira, mas era quase o final. “Quero dar voz de esperança, olhar em volta e pensar quantas vezes as pessoas disseram que a porra acabou. Não acabou, tá viva!”. Foi essa a mensagem final de Nenê e, assim, o Dance Of Days se despediu ao som de “Correção”.

Mi (vocal), Elliot (vocal e guitarra), Peres (guitarra) e Ricky (bateria) mal tinha subido ao palco e uma roda já estava se formando. A apresentação do Gloria começou com “Bicho Do Mato”, faixa cujo videoclipe foi extraído do DVD ao vivo da banda, que deve ser lançado em breve. Punhos cerrados em direção ao palco, pulos, palmas, gritos, só não teve mosh. O público estava tão empolgado quanto Mi, que sabe muito bem como conduzir um show. “Todo mundo bem aí?”, perguntou, completando que era muito legal estar tocando ali com todas aquelas bandas.

Gloria

Gloria por: Eduardo Lupianhez

“Desalmado” fez a roda aumentar ainda mais, assim como “Anemia”. “Muito foda”, definiu o vocalista. Ele também afirmou que o “rock é irmandade”. Discurso bonito, mas acho que eles não levam muito a sério, já que o estrelismo bateu ali e parou. “Abre o circle pit”, pediu sendo prontamente atendido. E, então, “A Arte De Fazer Inimigos” veio cantada aos berros pelos fãs. Após “É Tudo Meu”, o pessoal do fundo começou a mandar gritos de “saideira!”, pedindo para o show acabar logo. Não muito feliz, Mi perguntou para a galera da frente se eles queriam mais. Com a resposta afirmativa, ele mandou um “é nóis” e continuou com “Vai Pagar Caro Por Me Conhecer”. Ponto alto da apresentação, com uma puta energia.

Para mim, os melhores momentos ficaram por conta das músicas dos trabalhos anteriores. [Re]Nascido é um disco que não me agrada muito e foi o que prevaleceu no repertório. Com isso, depois da sequência “Só Eu Sei”, “Presságio”, “Grito” e “Horizontes” até eu já pedia mentalmente pela saideira. O meu alívio veio com a clássica “Asas Fracas”. Porradaria foda e foi mesmo a última música. A banda deixou o palco tão escrotamente que eu até achei que ia rolar bis.

Dead Fish

Dead Fish por: Eduardo Lupianhez

E o drama de quem precisava ir embora para não ter que dormir na rua começou. A espera foi grande, mas muita gente ainda se arriscou e ficou para ver o tão aguardado Dead Fish. Depois de tantos shows, entrevistas e matérias com a banda não tenho como não soar repetitiva em algumas coisas. Por outro lado, acho que esse foi o show mais diferente. A energia no palco estava diferente.

Como não poderia deixar de ser, Rodrigo (voz), Phil (guitarra), Alyand (baixo) e Marcão (bateria) subiram ao palco aos gritos de “Hey, Dead Fish, vai tomar no cu!”. É o óbvio, mas tem que ter. A música escolhida para abrir o set foi “Rei De Açúcar”. Achei diferente também começar com ela. Gosto da variação de repertório que rola entre os shows, mesmo que muitas vezes isso exclua alguns clássicos aqui e ali.

A roda pegou fogo em “Siga” e, mais uma vez, os seguranças precisaram ser alertados de que os fãs podiam sim subir ao palco e se jogar. Foi o que eles mais fizeram. Um Rodrigo bem mais calado do que o de costume perguntou para o público se teria jeito de voltar para casa depois. Naquela altura isso já não importava muito para quem estava ali. “Asfalto” veio de forma brutal e empolgante, tirou todos do chão.

Dead Fish

Dead Fish por: Eduardo Lupianhez

“Linear” antecedeu “Mulheres Negras”, sempre muito cantada e com devoção total dos fãs. Em seguida, o hino “Sonho Médio”, que sempre causa um caos na pista, gente em cima de gente e pessoas se jogando do palco de todos os jeitos possíveis. Demais! “Bem Vindo Ao Clube” manteve o clima insano, assim como “Zero E Um”. “Venceremos” também proporciona uma energia foda, com a galera pulando e cantando com vontade.

“Hey Dead Fish, vai tomar no cu!” voltou a ser gritado. Rodrigo pediu mais. A próxima a pintar no repertório foi “Re-aprender A Andar”. “Fragmento” antecedeu “Queda Livre”, praticamente berrada pela galera. “Proprietários Do Terceiro Mundo” como sempre foi de lavar a alma. “Essa é a última para dar tempo de pegar o busão”, anunciou Rodrigo. “Autonomia” originou uma roda bem grande, girando bem rápido. Ainda teve tempo para “A Urgência”, que fechou em grande estilo. Foi um show pouco diferente, mais curto que o habitual, mas incrível como sempre.

Primeira edição do Grito Alternativo encerrada. As falhas certamente vão servir de aprendizado para as outras edições, que espero poder ver em breve. E os que preferem criticar e dizer que não voltam mais ao festival nas próximas, depois só não vale ficar de mimimi dizendo que a cena underground do ABC está enfraquecida e carente de shows. Faça a sua parte.

Confira mais fotos aqui por: Jean Silva – @jeanfotosilva 

Agradecimento ao fotógrafo Eduardo Lupianhez por ceder seu trabalho à PUNKnet.

Texto por: Laís Ribeiro – @lahh_ribeiro

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