Fabio Andrade, do Driving Music e ex – The Invisibles, bateu um papo com a PunkNet sobre a vida, o início da carreira musical, algumas influências e momentos um tanto quanto divertidos da sua infância.
PUNKet – Fábio, como começou a sua vida na música?
“Eu imagino que ela tenha começado antes que eu tivesse consciência pra registrar o momento exato, mas a minha lembrança mais antiga é a de colocar os discos dos Menudos na vitrola e fazer “shows” pra minha mãe em casa. Eu colocava os discos, amarrava uns lenços nos braços pra entrar no clima, e cantava as músicas junto com os discos, dançando na sala de casa. Eu devia ter 3 anos nessa época e é a lembrança mais antiga que eu tenho em relação a música. Ainda tenho algumas fotos dessa época”.
“Poucos anos depois eu lembro de ter pedido um vinil do Roupa Nova de Natal. Foi o primeiro disco que eu ganhei porque eu realmente queria, e não porque meus pais compraram pra mim. Lembro do Natal na casa da minha bisavó e de eu colocando o disco pra tocar na vitrola pela primeira vez. Eu gostava de algumas músicas do Roupa Nova e ali eu descobri que nem todas as músicas que você gosta de um artista estão em um mesmo disco. Mas o disco tinha “Volta pra Mim”, que era a minha favorita, então fiquei feliz com o presente. Minha mãe ainda tem esse disco”.
“Depois disso, lembro de estar saindo do colégio uma vez… aí eu já devia ter uns 8 anos de idade. Minha mãe tinha ido me buscar no colégio e estava conversando com a mãe de um outro garoto, que havia começado a fazer aula de violão. Ela perguntou se eu tinha vontade de aprender violão e eu disse que sim. Não sei se eu já tinha pensado nisso de verdade até aquele momento, mas eu comecei ali, aceitando aquela oferta. Não sei se a minha mãe imaginava que 20 anos depois eu estaria tocando ainda, e que teria ido fazer o tipo de música que eu soube fazer nesses anos todos, mas tudo começou com aquela sugestão dela. Ela sempre falava que achava bonito gente que tocava violão e provavelmente imaginou que seria legal se seu filho fizesse algo que ela achasse bonito. Ainda me parece uma boa maneira de se criar filhos, na verdade”.
PUNKnet – Você se interessou por alguma banda em específico nessa época?
“A primeira banda que realmente me tirou o chão foi o Guns’n'Roses, com o Appetite for Destruction. Isso aí foi pouco antes de eu ter começado a aprender violão… provavelmente por volta de 1989, quando eu tinha sete anos. Depois que eu comecei as aulas, lembro que a primeira música que eu tirei de ouvido era “Knockin’ On Heaven’s Door”. Eu tirei tudo errado, na verdade, mas foi a primeira vez que eu percebi que as notas de uma outra música que o meu professor me ensinou pareciam com as de uma música que eu gostava. Naquela época, “Knockin’ On Heaven’s Door” era só uma das minhas músicas favoritas do Guns’n'Roses… eu mal sabia que era um original do Bob Dylan. E nunca imaginaria que anos depois eu ouviria o Freewheelin’ Bob Dylan incessantemente, imaginando como seria incrível aprender a dedilhar daquela maneira”.
PunNet – Como foi o começo da banda The Invisibles?
“O Invisibles começou como as bandas normalmente começavam naquela época: um amigo me chamou pra tocar. Foi assim que eu e Rubinho começamos a banda. E como nós não tínhamos amigos que tocavam bateria, começamos a procurar pessoas que tocavam bateria que pudessem se tornar nossos amigos. É claro que isso foi uma péssima idéia, porque bateristas são todos malucos (risos). E entre um e outro baterista, a banda existiu por 10 anos, lançou 3 discos, fez shows em vários lugares do Brasil… foi a banda mais importante da minha vida e eu fiz parte dela. Acho que é algo para se orgulhar de ter feito entre os 14 e os 24 anos de idade. Eu já tinha a sensação de ter construído alguma coisa, tanto como obra quanto como experiência, que eu não imaginava ser possível quando começamos a tocar”.
PUNKnet – Você tem alguma recordação interessante do seu primeiro show?
“O primeiro show do Invisibles foi em um churrasco no sítio de um amigo. A gente levou todo o pouco equipamento que tínhamos pra lá e tocamos no quintal. A coisa que mais me marcou é que os nossos amigos participaram como se fosse um show de rock “de verdade”. Eu imaginava que a gente fosse tocar e todo mundo fosse assistir, como alguns deles já tinham assistido nossos ensaios, mas quando começou a primeira música ficou muito claro que aquilo era um show de rock. A gente morava em uma cidade pequena sem qualquer tradição musical, quanto menos de rock. E acho que a juventude não se completa se você não vai em shows de rock. Nossos amigos queriam shows e nós queríamos tocar. E na primeira música do nosso primeiro show eu percebi que essas duas coisas se completavam de alguma forma”.
PUNKnet – E como é pra você compor e cantar em inglês?
“Desde o primeiro momento, isso me parecia uma condição, não uma opção. Eu comecei a compor tentando copiar músicas que eu gostava, seja pelos acordes ou pelas palavras. Era e ainda é um grande jogo de cortar e colar, a única coisa que mudou é o nível de consciência desse processo. E como eu só ouvia banda que cantava em inglês, eu comecei a fazer músicas em inglês, já muito antes do Invisibles”.
“Com o tempo eu comecei a pensar mais sobre isso e a tentar encontrar caminhos em que o estrangeirismo pudesse ser artisticamente interessante. Eu não cresci falando inglês, e essa perspectiva de se trabalhar em uma língua estrangeira me parece muito rica para se fazer algo que os nativos não podem fazer, porque já nasceram imersos nessa realidade. Eu tento dominar o inglês para usá-lo como uma pessoa que o tem como língua nativa não faria. Quando percebi isso, era como se abrisse pra mim uma avenida de possibilidades de imagens e construções poéticas que a rigidez da clareza e da necessidade de fazer muito sentido não me permitiam enxergar. Comecei a procurar outras formas de fazer sentido, e acho que é um desafio importante pra qualquer artista. Acho que comecei a intuir isso já no Fireworks, segundo disco do Invisibles, mas se tornou um processo realmente consciente e deliberado com o Driving Music”.
PUNKnet – E por falar nisso, como surgiu o Driving Music?
“O Driving Music surgiu pouco antes do Invisibles acabar. Eu queria continuar fazendo música e sabia que o fim da banda não ia mudar isso. Só resolvi tirar do caminho tudo o que me atrapalhava naquele momento e acabei fazendo as minhas músicas sozinho, gravando tudo em casa, sem depender de ninguém. Só agora que eu sinto que estou voltando a ter uma banda de verdade, embora eu continue gostando de fazer as coisas como eu quero, levando o tempo que me parecer necessário. E acho que encontrei amigos de talento que gostam das minhas músicas e que gostam de ter uma banda. É o suficiente pra tudo voltar a ser divertido e estimulante”.
PUNKnet – Você tem alguma outra paixão além da música?
“Eu nunca vi a música separada do resto do mundo. Pra mim, ouvir música é tão importante quanto comer, ir ao cinema, andar na rua, escrever, encontrar as pessoas, etc. Eu estou vivo, e as pessoas que estão vivas fazem coisas. Música é uma das coisas que eu faço. O meu maior desejo é que isso seja algo que faça realmente parte do meu cotidiano… tem um cineasta português chamado Pedro Costa que diz que ele gostaria de fazer cinema como um pedreiro sobe uma parede, naquele trabalho miúdo e diário. E é claro que são atividades diferentes, mas são atividades, como quaisquer outras. Minha relação com música é parecida. Minha maior vontade é de fazer música como um padeiro faz pão”.
PUNKnet – E o futuro? Quais são seus planos, seja para a banda ou por fora dela?
“Continuar vivo é sempre um bom plano. Ao menos pra permitir que os outros planos aconteçam. Sobre a banda, a minha intenção é não deixar que todas as outras obrigações me afastem da música, e isso é bem mais difícil na prática do que na teoria. Estou muito feliz com a formação atual do Driving Music e de como estamos desenhando nosso presente e acho que o desejo possível para o futuro é o de continuarmos tocando, torcendo para que mais e mais pessoas queiram nos escutar. E trabalhar todo dia pra isso, tentando mostrar pra cada pessoa, uma a uma, o porquê de isso tudo ser tão importante pra mim”.
Para quem quer acompanhar de perto, é só ficar ligado na agenda do Driving Music:
Nov. 18 – Rio de Janeiro, Audio Rebel, 19hs, R$10
Driving Music (solo) & mario maria.
Ou acesse o site: http://driving-music.net
Para quem é fã do Invisibles, não perca tempo e adquira produtos oficias da banda na: www.punkshop.com.br














