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Além Dos Acordes #119 – Com Gustavo Bertoni, da banda Scalene

Punknet | 27/05/2015 | Comentários desativados em Além Dos Acordes #119 – Com Gustavo Bertoni, da banda Scalene | Colunas, Entrevistas
Foto por: Vitor Malheiros

Foto por: Vitor Malheiros

Diretamente de Brasília, inserido no meio musical desde seus nove anos de idade e atualmente com a carreira decolando, o entrevistado da semana é o vocalista do Scalene, Gustavo Bertoni. O músico conversou com a PUNKnet sobre seu trabalho com a banda,  projeto solo, as apresentações no Lollapalooza e no SXSW, além da participação no reality show Superstar. Esses e outros assuntos você confere na entrevista logo abaixo.

PUNKnet – Pra começar, conta pra gente como você iniciou sua vida musical.

Gustavo – Meus pais sempre colocavam discos pra escutarmos juntos. Minha mãe nos introduziu aos Beatles, Cat Stevens, Pink Floyd e vários artistas da MPB. No carro do meu pai quando não ouvíamos as trilhas de seus filmes favoritos, ele alternava entre Frank Sinatra, Elvis Presley e os irmãos Gershwin. Aos nove anos, comecei a fazer aula de violão e aos poucos fui me apaixonando por música.

PUNKnet – Quais são suas influências musicais e pessoais?

Gustavo – Fora da música, acho a história de vida do Michael Jordan extremamente inspiradora. Poucos sabem o tanto de “nãos” que ele ouviu durante sua carreira e como isso acabou despertando um dos espíritos competitivos mais devastadores da história dos esportes. Durante a carreira inteira foi a sua capacidade de tornar experiências negativas em positivas que o levou tão longe. Joguei basquete minha adolescência toda e tento trazer o que aprendi pra aplicar na vida de músico.

Ouço muita coisa, quase todo dia. Tento ficar ligado nas novidades e ao mesmo tempo pesquisar coisas meio obscuras ou antigas que servem quase como arquétipos pra compositores hoje em dia. Só dentro do rock, já são várias vertentes que amo: post-hardcore, post-rock, stoner, metal… Além do rock, costumo ouvir muito folk e trilhas. Acho que minhas maiores influências são os Beatles, Queens of The Stone Age, Thrice, City and Colour, Radiohead e Matt Corby. 

PUNKnet – Recentemente você lançou um álbum do seu projeto solo. Como foi o processo de composição do The Pilgrim e quais as influências e o aprendizado em fazer esse projeto?

Gustavo – Desde os 16 anos, paralelamente às composições do Scalene, fui acumulando umas 30 composições mais folk em inglês. Serviam como desabafo, como estudo. Compor para o formato violão e voz traz uns insights e desafios bacanas. Acabaram se tornando um processo de auto-análise também. Chegou a um ponto em que já estava ficando agoniado de ter essas músicas paradas. Privilegiei as mais novas, mas gravei umas mais antigas pra honrar quem já vinha pedindo que eu gravasse esse CD em razão de vídeos (nada legais) que postei no YouTube. Então entrei em estúdio com nosso produtor Diego Marx e gravamos tudo o mais rápido possível, buscando sempre não atrapalhar a agenda do Scalene. Foi um processo muito tranquilo! Ao garimpar e finalizar as músicas em estúdio, foi massa misturar influências antigas (Cat Stevens, John Denver, Beatles) com grandes nomes do folk atual como Bon Iver, James Vincent McMorrow, Mumfordand Sons e City and Colour.

PUNKnet – Até o momento como o álbum foi recebido pelo público? Tem superado as expectativas?

Gustavo – Muito bem, felizmente. Superou minhas expectativas, pois ele é um álbum despretensioso e minimalista. Fico feliz que as pessoas conseguiram se conectar com a essência das composições. Recebi muitas mensagens carinhosas sobre como minhas letras tem repercutido na vida das pessoas e isso não tem preço, é muito gratificante e inspirador.  Não tenho divulgado muito porque o Scalene tá em um momento muito frenético, mas o feedback foi muito positivo. Acho que o legal desse projeto é mostrar um lado meu que pessoas não conheciam. E isso pode acabar fazendo as pessoas ouvirem Scalene de outro jeito.

PUNKnet – Com relação à sua carreira solo, no que ela se difere do Scalene?

Gustavo – Não sei nem se posso chamar de “carreira” solo ainda. É um projeto paralelo que vou levando sem pressa. Scalene é e sempre será meu foco. O processo de composição da banda é muito diferente porque envolve todos os integrantes. É difícil comparar, nem gosto hahah são propostas bem opostas. Scalene busca inovar, desafiar. Como banda temos um alcance e versatilidade que nunca terei sozinho. São quatro mentes muito distintas em harmonia. E é muito mais legal que meu projeto né, convenhamos! (risos)

PUNKnet – Além desse projeto e da banda você possui algum outro tipo de trabalho?

Gustavo – Por enquanto, não.

PUNKnet – Você se apresentou com a Scalene no Lollapalooza e no SXSW, no Texas. Como foi tocar para um público maior e, no segundo caso, levar seu trabalho para o exterior? 

Gustavo – Foram duas experiências sensacionais e muito distintas. No Lolla, tocamos em um som e palco que deve estar no Top 10 mundial. Nível altíssimo. Foi louco porque tocamos muitíssimo cedo, então quase todo mundo que estava lá nos conhecia. Nos sentimos em casa. Galera representou muito, foi irado. 

Os showcases do SXSW são pequenos, pra galera do mercado e pra um público que tá disposto a ver um pouco de tudo. A graça do festival é conhecer um bando de artista que você nunca ouviu falar. Foi bem legal poder ter absorvido tanta coisa legal lá. Foram muitas palestras e shows interessantes. Recebemos muito feedback positivo de gringos. Foi muito engraçado ouvir que era muito bizarro pros americanos ouvirem um som com muita influência “deles” sendo cantado em português por brasileiros que pareciam britânicos.

PUNKnet – Como é a cena musical de Brasília? Por ser a capital federal e sede do governo você está diariamente convivendo com um mundo que recebe mais diretamente os acontecimentos locais. Isso influencia de alguma maneira em seu trabalho?

Gustavo – A cena brasiliense tem talentos, diversidade e garra, mas falta um pouco de estrutura e, às vezes, profissionalismo. Acaba influenciando sim! Não só por ser a sede do governo, mas também porque há um certo tipo de comportamento de alguns jovens “privilegiados” da nossa cidade que é revoltante. Uma arrogância e falsa sensação de poder que é difícil engolir. Presenciamos e repudiamos atitudes assim e de desrespeito. Mas isso deve ter em toda cidade também…

PUNKnet – Das bandas de Brasília, quais as novidades que você destacaria?

Gustavo – DonaCislene pelo grande potencial revelado em músicas do último CD e pelo trabalho consistente de clipes e shows. São caras do bem e tão fazendo rock sincero. 

PUNKnet – Em um contexto geral, ultimamente quais as bandas que você tem ouvido?

Gustavo – Comecei a mergulhar no som do The Dear Hunter e me amarrei. A discografia deles é muito diversa, tenho que escutar muita coisa ainda. Curti muito algumas músicas do novo do Mumfordand Sons, mas enjoei rápido do CD. Tenho ouvido também o disco de estreia do James Bay, que faz um folk com um apelo pop bem respeitável. Pra trabalhar e ficar em casa de boa tenho ouvido as trilhas do Hans Zimmer.  

PUNKnet – Li em uma entrevista que você doaria parte da renda do seu projeto para a ONG “Vida Positiva”. Conta pra gente sobre essa ONG, há quanto tempo ela existe e a finalidade. 

Gustavo – O Instituto Vida Positiva já tem quase 10 anos. A ONG ajudaem necessidades dos portadores do vírus do HIV/Aids e em prol de superar o precánceito e a discriminação. Eu ia em alguns eventos deles, pois amigos da minha família os ajudam há um tempão. Fui me familiarizando com o ambiente e quis ajudar porque sempre quis me envolver com trabalhos desse gênero, mas não sabia por onde começar. Surgiu a oportunidade e hoje em dia busco ajudar outras iniciativas também. Acho que falta um pouco na nossa geração o costume de ajudar ao próximo, sempre tive exemplo em casa e acho essencial para formação do caráter.

PUNKnet – Como está sendo participar do Superstar, da Rede Globo? Já da para perceber alguma mudança em relação ao público e ao alcance da banda?

Gustavo – Tem sido uma experiência ótima. Até agora tivemos a abertura pra tocar som autoral e passar nossa mensagem. Fazer isso pra milhões de pessoas com a ajuda da estrutura sinistra da Globo é surreal. Ver muita gente nova se envolvendo com nosso som, votando, ajudando, se emocionando…não tem preço, tem sido muito positivo e gratificante. Sentimos imediatamente o impacto disso nas redes sociais, agora vamos sentir aos poucos o impacto nos shows. Cuiabá já teve uma galera nova curtindo com a gente, foi irado. 

PUNKnet – Muitos criticam o Superstar e quem se propõe a fazer parte dele, inclusive outras bandas da mesma cena que vocês. Como está sendo lidar com isso? Acha que de certa forma é um preconceito?

Gustavo – Tem sido bem tranquilo, mais do que esperávamos, até… (risos). O fato de termos tocado músicas autorais, incluindo “Danse Macabre”, que foge completamente dos padrões que se espera da Globo devido a seu peso e tom sombrio, tem deixado a galera menos apreensiva em relação à nossa participação no programa. Pelo contrário, nossa postura tem sido muito elogiada. Encaramos aquilo tudo ali como um grande palco. Uma forma de alcançar mais pessoas, dissipar nosso som, se conectar com um público novo e torcer que isso desague em nossas carreiras. Somos gratos e estamos animados com a oportunidade, mas não somos uma banda criada para o Superstar, estamos juntos há seis anos e temos objetivos bem claros em nossas mentes. 

Eu até entendo a posição de alguns que criticam, afinal, música não é competição. Concordo. Tão difícil julgar algo tão subjetivo, né? Mas é interessante para as bandas, muito se aprende. A audiência do programa espera um certo nível de energia/entretenimento das bandas e realmente é um desafio agradá-los. E acontece que a mentalidade dos músicos que estão lá é a mais colaborativa e amigável possível. As bandas acabam virando parceiras para futuros projetos. A vivência durante o programa é rica – trabalhar com os produtores musicais, colaborar com toda equipe de produção/vídeo fenomenal deles. O nível de profissionalismo lá é por si só inspirador.

PUNKnet – Quais são seus planos para esse ano?

Gustavo – O foco será o CD novo, queremos trabalhar ele bem. Já está em todas plataformas digitais e o físico sai daqui a pouco, aliás. Continuaremos dando nosso melhor no programa, dependendo de como for nosso desempenho muita coisa pode mudar. Mas continuaremos fazendo shows pelo Brasil, principalmente pra divulgação do ÉTER. Foram 30 faixas inéditas e dois singles (com parcerias) em dois anos, um CD novo talvez demore… se bem que o Scalene é meio maluco, nunca se sabe.

Por: Vinicius Aliprandino – @ViniAliprandino

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