Fábio Sonrisal, do Hateen, bateu um papo com o PUNKnet sobre música, shows históricos, mudanças, gravações e a vontade de sempre continuar.
PUNKnet – Sonrisal, como começou sua vida na música?
Sonrisal – Desde bem cedo sempre tive muito contato com discos, violões, orgãos daqueles antigos de móvel.. Meu avô paterno é um excelente organista até hoje em seus 80 e todos anos, e minha avó materna sempre cantou em corais e os ensaios eram em casa, então eu cresci no meio de música.
PUNKnet - Você tinha algum artista ou banda que te fez querer seguir essa carreira?
Sonrisal – Não carreira, mas pra vida… dia 20 de janeiro de 1991, Guns n´ Roses pela TV no Rock in Rio II. Eu tinha 11 anos. Foi quando eu soube que queria fazer algo como aquilo. Pedi uma bateria de aniversário, mas minha mãe pensou no inferno que seria e me deu uma guitarra, pois eu já arranhava o violão.
PUNKnet – Como foi o início do Hateen pra você?
Sonrisal - Eu tocava com o Koala no Street Bulldogs lá pro final de 2005 e no Aditive ao mesmo tempo. E assim que o Hateen assinou com a Universal/Arsenal os caras já sabiam que a demanda de shows seria grande e que seria impossível conciliar o Japinha e o Fernando com o Cpm22. Eles testaram outros subs mas já havia a especulação comigo e com o Xim. Como não estávamos mais 100% com a cabeça no Aditive uma hora rolou uma conversa e alguns dias depois estávamos fazendo os shows. Foi uma experiência muito legal fazer todos aqueles shows grandes e um aprendizado sem tamanho.
PUNKnet – Antes de você entrar para o Hateen, você tocou no Aditive. Conta um pouco pra gente como foi essa experiência.
Sonrisal – Entrei pra banda através do Hóspede quando a mesma ainda se chamava Stranded. Resolvemos então deixar o disco do Stranded pra trás, que era em inglês, e pegar as músicas novas que eram em português e continuar trabalhando com elas e criar uma nova banda. Eu surgi com o nome AditivO e um amigo sugeriu a troca pra Aditive. Na mesma época eu estava me desentendendo demais com os caras do Street Bulldogs e ainda na época de pré produção do que viria a ser o disco “Trilha Sonora Para Ninguém em Especial” (que aliás esse ano 2012 faz 10 anos!) eu deixei a banda, acreditando que realmente o Aditive poderia ser uma banda grande. E foi. Eu me orgulhava de pouco mais de 1 ano depois estarmos dividindo headliners de festivais ao lado do Street que eu havia saído, orgulho besta de adolescente. Foram muitos anos de Aditive, morávamos juntos, gravávamos em casa, marcávamos nossos shows, giramos o país, foi uma experiência muito intensa. Seria injustiça dizer que quando deixei a banda não tivesse ficado bem triste por tal, mas foi uma escolha e com o tempo vi que foi certa. Mas dou muito valor aos meus anos com a banda. Costumo dizer que o Street Bulldogs foi a minha escola e o Aditive foi a minha faculdade. Agora de fato estou ativo no mercado! Hehehehehe.
PUNKnet – E falando no Street Bulldogs, conta um pouco pra gente dessa época.
Sonrisal – Eu cresci com o Street Bulldogs. Entrei pra banda em 1997 ainda com 16 anos de idade e os meus rolês de adolescente eram shows punktoscos que tocávamos! Não sei nem o que dizer sobre o Street Bulldogs, passei a maior parte da minha vida musical até então nessa banda. E mesmo nos poucos anos em que estive fora da banda eu fiz diversos shows hora em lugar de um ou de outro, nas guitarras e baixo. Vejo o Street Bulldogs com aquela sensação de “anos dourados” e todo aquele romantismo que o hardcore carrega sobre o final dos anos 90 e inicio de 2000.
PUNKnet – O Hateen acabou de lançar o disco “Obrigado Tempestade”. Como foi o processo de gravação?
Sonrisal – Todas as músicas, exceto Obrigado Tempestade em si, já existiam há alguns anos, mas nós, como banda, estávamos em um processo muito desgastante de todos os problemas internos, troca de integrantes, desligamento de gravadora e inúmeras outras coisas. Isso nos travou por anos. Em um certo momento, houve um estalo, uma sensação de desprendimento, voltamos a nos empolgar e querer fazer um disco pra gente, que nos agradasse antes de qualquer coisa. Aos poucos fomos tocando e mudando aquelas músicas naturalmente. Quase quatro anos de enrolação e no final resolvemos tudo, rearranjamos, pré-produzimos e gravamos o disco em coisa de três meses. A gravação foi muito rápida, o instrumental todo foi gravado no Norcal Studios pelo Brendan Duffey em três dias. Depois fomos para o estúdio Mix Master Music do Lampadinha, nosso mestre e produtor do disco onde o Koala gravou todas as vozes e eu gravei alguns backing vocals. Essas vozes foram enviadas ao outro mestre Paulo Anhaia, que deu um talento em tudo e gravou ainda mais uns coros e outras vozes fudidas. Tudo voltou pro Lampadinha que mixou e masterizou. Adoramos o resultado, acho que tem uma parede de peso muito foda e timbres bem definidos. De fato disco melhor produzido de nossas vidas, até então!
PUNKnet - E quais as expectativas para esse novo trabalho?
Sonrisal - Estamos planejando alguns clipes, e um deles pra já. Está nos planos. E esse é o lance, ter planos e efetivamente colocá-los em pratica mas sem expectativas. Quando se cria expectativas e não as atinge a gente tende a desanimar. Prefiro não ter expectativas! Nós adoramos nosso disco, queremos mostrá-lo pra todo mundo e sair fazendo shows, esse é o lance.
PUNKnet – O Xin teve outras oportunidades fora do país e ficará fora da banda por tempo indeterminado e no lugar dele volta o Japinha. Como está sendo pra você essa “mudança” na formação? O que podemos esperar dos shows em 2012?
Sonrisal – O Xim é meu irmão, toquei com ele mais de dez anos seguidos passando por diversas bandas. Desejo tudo de bom nesse trampo dele e espero visita-lo em breve. Em questões de adaptação, claro que os bateristas tem pegada e estilo completamente diferentes, mas o Japinha voltou pra casa, pra banda dele, que ele fundou. Não tinha como não ser bom.
PUNKnet – Tem algum momento da sua carreira que ficou marcado pra sempre como o mais especial?
Sonrisal – Não tenho UM momento pra vida assim…Teve uma vez que o Street Bulldogs tocou numa Verdurada, ainda na época da casinha no Jabaquara e foi completamente insano. Primeira vez que vi um lugar inteiro, e não só aquela meia duzia na frente do palco, fazer um singalong de uma música minha, lugar caindo abaixo e eu pensando que aquilo foi feito com meu violão, sentado na minha cama! Aquilo foi marcante demais. E lembro que era o mesmo dia do show do Kiss em Interlagos, aliás, fiz um caos pra tocarmos antes da nossa vez pra eu e o Dráusio irmos ao show.
PUNKnet - De todas as músicas que você já ajudou na composição, qual você considera a mais importante?
Sonrisal – Muito difícil essa… Posso citar Call Me At Home e Red Roses Bouquet do Street Bulldogs por exemplo.. São músicas que apesar de eu achar soem tão simplórias hoje, representaram demais e tenho orgulho de ter as composto.
PUNKnet - Você está trabalhando em um novo projeto, que parece estar sem vocalista por enquanto. O que você pode nos adiantar sobre isso?
Sonrisal – Desde fevereiro de 2011 que me mudei de volta à minha cidade natal, Pindamonhangaba SP, eu montei um estúdio por aqui com meus melhores amigos de infância, o Estúdio RIFF (@estudioRIFF). E nós tínhamos de fato uma bandinha quando muito jovens lá por 94/95 (hehehe) chamada ACME BOMB! Músicas próprias e covers de Rancid e Operation Ivy! Apesar de boa intenção éramos péssimos! heheheh. Bom, antes de eu mudar pra cá eu tinha em São Paulo um projeto com o Karacol (que tocou no Hateen) e tínhamos bases muito, mas muito boas e infelizmente não conseguíamos dar andamento praquilo. De repente me vi aqui, em uma cidade pacata do interior, dentro de um estúdio meu e de amigos, todos músicos e com boas músicas paradas. Sem querer viramos um projeto musical e conforme fui gravando (e aprendendo a gravar) as coisas foram tomando forma e ficando muito legais. Resolvi que realmente poderia ser um projeto e pus na cabeça que queria uma mulher pra cantar. Nisso entrou o processo do “Obrigado Tempestade” no meio e dei um tempo. Como estava rolando essa vibe forte de amizade que temos no Hateen e isso transpareceu no disco, a coisa andou de fato por isso, eu adotei isso como filosofia. Resolvi que se não achar alguém que cante e seja do meu rolê de amigos e pessoas que gosto de conviver, eu mesmo irei acabar cantando, foda-se. Não espero ficar famoso, nem espero ficar rico, por que me matar pra achar a/o vocalista perfeito ou colocar alguém que eu não conheça e nem sabe-se lá o que pode acontecer daqui um tempo? Ainda não desisti, estou procurando mas não tão longe! Porém as demos do disco estão todas com as minhas vozes. Aliás o projeto se chama Del Toro “Punk do tipo Rock do tipo Enroll” @DelToroRock. Sem previsões ainda pro disco e nem nada, é um projeto. Minha BANDA é o Hateen !
PUNKnet – Além do Rock, o que mais você faz da vida?
Sonrisal – Como mencionei tenho um Estúdio de gravação e ensaios, o Estúdio RIFF, gerencio uma pequena rede de trailers de sanduíche da minha família, que é o motivo de eu ter voltado para cá, depois do falecimento do meu avô que fazia o job até então.
PUNKnet – Como você está avaliando o cenário independente atual?
Sonrisal – Acho que nesse momento está acontecendo uma reviravolta total. A velha história do ciclo se repetindo, a música se reciclando, a busca pela sujeira, pela agressividade, pelo sentido, novamente. As pessoas cansaram dessa música muito bonitinha, muito afinadinha, sabe? É aquela coisa que a inspiração está sempre na releitura de 20 anos atrás e isso é anos 90 e isso é Grunge e Hardcore !
PUNKnet – Quais os planos pro futuro?
Sonrisal – Quero tocar e tocar, lançar discos, gravar discos, gravar discos dos outros, ter filhos, perder o medo de altura e o que vier é lucro.
PUNKnet – Deixa uma mensagem pra todo mundo que está lendo essa entrevista.
Sonrisal – Um salve pra todos, e apóiem a música alternativa nacional, vá aos shows, compre discos, baixe os discos, ouça-os, reflita e discuta. Assim crescemos novamente. Grande abraço.
Por: Rômulo Oliveira - @romulo_oliver

















