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Backdrop Falls, O Inimigo, Abraskadabra e Dead Fish: meu último Hangar 110 – Por: Gabriel Coiso

Punknet | 22/12/2017 | Comentários desativados em Backdrop Falls, O Inimigo, Abraskadabra e Dead Fish: meu último Hangar 110 – Por: Gabriel Coiso | Matérias

 

“Faz doze anos que venho a este local, e ainda não aprendi de qual lado da estação tem que descer”. Incrível. Sempre erro. Desembarco na estação Armênia e vou para um lado, espio a rua pelo vão aberto e vejo que estou do lado errado. Aí volto tudo. Ontem (21/12/2017) não foi diferente.

 

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De certa forma, esse pode ser considerado um dos hábitos que desenvolvi com relação a ir ao Hangar 110. Hábitos, coisa que todo mundo que frequenta o local criou, à sua maneira. Como, por exemplo, o hábito de alguns de chegar cedo. Sempre tem a galera que chega bem antes da casa abrir, fica ali sentada na calçada, apoiada no muro trocando ideia. Desconhecidos se tornam conhecidos.

 

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É esse pessoal que entra e confere o primeiro show. No caso da noite de ontem, da Backdrop Falls. Uma rapaziada de Fortaleza/CE, que fez seu primeiro show na casa. Hard Core melódico bem trabalhado em duas guitarras, com solinhos sujos e vocais afinados. É notável que, no meio de duas guitarras, o jovem que empunha o baixo, com muita precisão, dá peso e personalidade às músicas.

 

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Tem também o pessoal que chega na Rua Rodolfo Miranda despreocupado com o horário. Encosta nos carrinhos de lanche estacionados na frente do Hangar e saboreia um xis qualquer coisa, percebe que já tem banda rolando e só depois da “refeição” entra pra ver qualequié.

 

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O qualequié da segunda banda ontem era nada menos que O Inimigo. Na metáfora com a formação escolar, dá pra dizer que se trata de uma pós-graduação em Hard Core. Ver figuras como Juninho e Fernando Sanches no palco é sempre uma pesada aula de música. Quando tocaram “Ovelha Negra”, música que foi dedicada aos hermanos argentinos (“que diferente da passividade brasileira, estão batendo de frente com a polícia e o governo”) havia já um bom público e agito na casa.

 

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Tem um pessoal que acho engraçado de conferir. É a turma do “Show principal”. Não dá pra dizer que são apaixonados pela música ou por algum estilo, mas sim por uma banda. Nesses anos, sobretudo recentes, escrevendo pro PunkNet, me acostumei a ficar perto da porta antes do penúltimo show da noite. Sempre tem uma dúzia que entra meio afobada e já perguntando se já está na hora do show da banda xis.

 

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Essa rapaziada ontem, somada a todas as anteriores, recebeu e potencializou a energia da Abraskadabra. Punk Rock com metais ou Ska com aceleração intensa? Ou as duas coisas acrescidas de algum elemento mágico curitibano? Letras divertidas, muitos sorrisos e pouca falação. O show da Abras é realmente um acontecimento que liga a galera, coloca pés parados para dançarem, faz corpos inertes quererem se mexer e rostos fechados abrirem sorrisos.

 

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Por fim, tem o pessoal do bar. Saiu do metrô, atravessou a Avenida Tiradentes, entrou na Rodolfo Miranda, como abelhas indo em direção ao pólen, a rapaziada vai direto pro bar próximo à esquina. Litrão pra cá e pra lá até a hora precisa de entrar para ver apenas o último show. Em geral, sempre digo isso nas resenhas, perdem bandas exuberantes, mas, enfim: é o pessoal que curte mais prestigiar a Ambev do que as bandas independentes – e o que isso diz sobre o fechamento de casas bacanas como o Hangar, bom, tire suas conclusões.

 

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Já com todos os ingressos devidamente verificados pela rapaziada da segurança, o Alemão, idealizador e dono do Hangar, realizou uma bem humorada apresentação da última banda. Agradeceu o público pelos dezoito anos de casa. E então começou a hecatombe, a catarse, o caos instaurado sob forma suor, pulação, mosh pit, stage diving, gritaria e dedinhos pro alto.

 

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Dead Fish no palco das 22h27min às 23h59min. E o que aconteceu nessa uma hora e meia eu não saberia descrever. Uma pulsação única, rara. De ponta a ponta, por quase todo o show, não se via um corpo parado na pista. Blocos de música que, se não contei errado, chegavam a sete músicas tocadas em sequência, sem intervalos.

 

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Confesso que houve momentos em que faltou fôlego, e quando fui ao bar pegar uma água vi que, realmente, não havia um corpo parado: a rapaziada atrás do balcão cantava e pulava no mesmo ritmo da galera espremida entre as colunas e paredes da casa. Inclusive, as paredes suavam.

Momento bonito do show que merece destaque, foi a entrega da cadeira de rodas para o Luís, um rapaz que com muita frequência vejo em shows. Foi feito um financiamento coletivo para montar uma cadeira de rodas turbinadona para ele. Ela foi entregue no palco da casa, e ele saiu do palco em um stage diving.

 

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“Bem vindo ao clube, celebrar o fim”. Os olhos atentos ao relógio – “Se a gente perder o metrô, o Uber vai ser uma facada!” – mas no palco havia um Rodrigo fanfarrão: “Ninguém sai. Não sai ninguém! Vamos ocupar o Hangar!”.

Por fim, dentre tantos hábitos comuns e em comum com relação ao Hangar 110, temos a correria para o metrô. Mal acabou a última música – “Vitória”, foi a última música que ouvi no Hangar – misturei-me às dezenas de pessoas que em passos largos seguiam em direção à estação Armênia. “Não vai dar tempo, e se pegar o metrô não vai dar tempo de pegar o ônibus depois!”. Correria e cansaço. Pegar o metrô, como o Pedro, cansado, suado. “Pode por minha foto no texto, mas eu estou todo destruído”, “E não foi sempre assim que saímos do Hangar?”, “É, verdade”.

 

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Seguiremos agora, o Punk Rock, o Hard Core e o Rock Independente, em outros endereços. Mas é impossível não dizer que, por todos os shows, por todas as amizades, por todas as bandas, por todos os porres na juventude, por todos os pulos do palco, por todos os óculos quebrados e documentos perdidos: obrigado Hangar 110!

 

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Matéria: Gabriel Coiso

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