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Black metal, Noruega, anos 90: Abbath em Belo Horizonte

Punknet | 05/06/2017 | Comentários desativados em Black metal, Noruega, anos 90: Abbath em Belo Horizonte | Matérias, Uncategorized

 

Olá amigos e fãs de ritmos agressivos como punk, hardcore, black metal e Victor & Léo. Hoje falaremos sobre uma coisa muito importante e que todo mundo deveria saber desde a escolinha: Abbath é muito bom.

 

Não conhece Abbath? Não se envergonhe. Até poucos dias atrás, eu também não conhecia. Como notório fã e colecionador de memorabília do grupo sueco ABBA – tendo 25 compactos, 14 long–plays, duas peças de figurino da turnê de 76, bonecas Mattel das deusas Agnetha Fältskog e Frida Lyngstad, além de pôsteres dos rapazes – fiquei curioso com o homônimo norueguês acrescido de “th” ao final. O resultado foi surpreendente.

 

Como neófito no círculos menos abissais do black metal, chamei um belo exemplar de conhecedor do gênero: Rafael Mordente, conhecido no Brasil por The Brazilian Rafael Mordente.

 

O show foi no domingo, dia 28 de maio, no Music Hall, em Belo Horizonte. Mordente foi lá pra casa, onde tomamos umas cervejas. Entre cigarros e bongadas, pedi a ele que explicasse pra mim quem diabos – se não o próprio – era Abbath:

 

 

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Foto: Batista

 

 

Então Mordente, por que Abbath?

Mordente: Então… ele lançou um disco solo ano passado (2016) – Abbath – como a banda mesmo, chamada Abbath. Inclusive, um disco absolutamente espetacular, de fora a fora. Não tem nenhuma música ruim no disco.

 

A banda chama Abbath?

Mordente: A banda chama Abbath.

 

E o cara chama Abbath?

Mordente: E o cara chama Abbath. Que nem Marilyn Manson – o cara é o Marilyn Manson e a banda é Marilyn Manson. Esse disco do Abbath é metal pra caralho.

Pra quem tem uma breve noção – que é o meu caso, pois não sou historiador do gênero, então não sei os pormenores da trajetória – o que acontece é que o Abbath era o frontman da banda Immortal. Immortal é uma banda norueguesa de black metal surgida nos anos 90. Essas três palavras-chave: black metal, anos 90 e Noruega são automaticamente relacionadas com os lances de suicídios, queima de igreja, assassinato, prisão, treta Burzum versus Mayhem… Aquelas coisas que fizeram o black metal estourar. Só que o Immortal, até onde me consta, corria por fora disso.

 
Mayhem existe ainda?

Mordente: O Mayhem existe ainda. Salvo engano, fizeram show em São Paulo neste ano ou no final do ano passado. Show recente, puta show inclusive, tocando o disco De Mysteriis Dom Sathanas.

 

 

Ah sim, esse eu já ouvi.

Mordente: Pois é. Mas enfim… fato é que o Immortal é dessa época, mas não é exatamente desse rolê de suicídios, assassinatos e incêndios criminosos. Faz parte do metiê por causa do som podrão, sujão, intenso e bonito. Então o Abbath tem suas raízes aí. Eu não sei quando é o primeiro lançamento do Immortal – chamo de anos 90 o período entre fim dos anos 80 e comecinho dos ano 90; realmente é uma precisão cronológica que eu não tenho.

O grande lance é que nesse tempo todo, o Immortal nunca parou. Lançaram disco pra caralho, encontraram bem cedo a voz deles, a essência musical deles. Beleza, tamos falando de black metal e tal, mas… dentro do gênero você vai achar características em comum entre uma banda mais refinada como Emperor e uma mais crua, tipo Darkthrone. Do mesmo jeito, você vai encontrar diferenças.

 
E Immortal você escuta? Escutava desde sempre?

Mordente: Não escuto desde sempre. A minha entrada no black metal se deu por meio de outras bandas. O primeiro disco de black metal que escutei foi o Ceremony of Opposites, do Samael. Apaixonei na hora e depois fui para Emperor, Dark Funeral e Cradle of Filth. Só que eu sempre soube da existência do Immortal. Sempre convivi com pessoas que adoravam a banda e até acho que adoram até hoje.

Daí quando comecei a usar a internet, essa coisa de vídeo era um lance escasso. Aí rolavam os clipes do Immortal, que eram engraçadíssimos. Aliás, me pareciam engraçados porque eu nunca consegui sacar se eles já não levavam a coisa a sério desde sempre ou se eles levavam a sério e não tinham muita noção do que estavam produzindo.

 

(Noção) do ridículo…

Mordente: Por aí. A questão de não levar a sério no sentido dessa coisa de cena, ideologia, radicalidade. Eu não sei se houve um tempo em que eles de fato levaram isso a sério, mas os clipes do Immortal eram muito engraçados por causa do contraste. Era uma música do caralho, mas os clipes eram os caras de corpse paint correndo no mato.

Tem o clipe clássico de Call Of The Wintermoon, que virou gif animado… o Immortal eu acho que foi a grande banda de black metal dessa época que conseguiu sobreviver à modernização e ao processo de ironização das coisas. E sobreviveu justamente porque toda aquela tosqueira visual foi abraçada com muito carinho por causa da qualidade da música.

 

Entendo.

Mordente: E o Abbath – especificamente, a pintura de rosto do Abbath – se solidificou como identidade. Algo tipo as pinturas do Kiss, vocês tem a pintura do Ace, do Gene…

 

Você tem os personagens mesmo…

Mordente: Isso. E o Abbath conseguiu isso porque ele sempre se pintou do mesmo jeito e sempre se portou de maneira fisicamente peculiar. E eu fico nessa dúvida… se ele já era um cara desapegado de cena, tipo “eu quero fazer música, eu gosto de fazer metal e vou fazer os clipes bem toscos de propósito…”. Eu não sei se ele teve um processo de ser ironizado ou se ele sempre foi assim.

Fato é que ele sobreviveu a esse processo de ironização do mundo, pós-internet, pós-onze de setembro, etc. Então é um cara que não abriu mão da experiência dele fazendo metal, mas conseguiu se posicionar de uma forma totalmente privilegiada – no sentido de que a pessoa, mesmo nunca tendo ouvido, vê ele no palco e pensa “caralho eu já vi um gif com esse cara!”.

Daí a banda começa a tocar e a pessoa pensa “caralho, o cara toca muito. A banda é ótima!”. É um metal responsa, cara. É feito por quem viveu o rolê todo. Feito por quem não inventou moda, não fez firula. E quanto mais foram achando o campo harmônico deles, o campo melódico, o groove, mais fácil ficou de identificar as músicas do Immortal.

 

 

Entendi.

Mordente: Então durante o tempo dele no Immortal, já nos anos 2000, ele lançou um projeto chamado “I”, também um puta som.

 

 

E o Immortal acabou nessa época?

Mordente: Não, acho que não.

 

 

E atualmente o Immortal acabou?

Cara, eu não tenho certeza (nota do editor: o Immortal segue vivo (RISOS), atualmente grava um disco novo), mas o fato é que ele fez esse disco “I” e com o passar do tempo ele foi se acertando.

E quando ele lançou esse disco de 2016, como Abbath mesmo, e montou a banda Abbath… esse disco é a súmula. Tem muita coisa que você escuta e pensa, “cara isso parece muito com Immortal”. Então você consegue ver o que tem dele no Immortal e o que é contribuição dele em música dos outros. Mas agora de um jeito “tudo eu quem fiz, porém agora feito do meu jeito”.

Então é um disco que você escuta e passa a impressão, a sensação, a certeza – arrisco dizer – que é feito por quem manja. Não é um maluco qualquer que brotou do chão. É um cara que manja pra caralho, mete riff pra caralho…

 

 

É um geniozinho em quem a gente não presta atenção porque um pedaço dele tá ali na comicidade.

Mordente: Sim, exatamente. A dúvida que fica é se ele já tinha esse desapego com a cena ou se abraçou ao longo dos anos. Fato é que ele tá de boa nisso, agora. Você vê entrevista dele e vê que é um cara super relaxado, fanfarrão, com senso de humor.

Ele não se leva à sério. Essa é uma característica de artistas que às vezes não agradam todo mundo, mas que são respeitados pela autenticidade. É o caso, por exemplo – totalmente não relacionado em gênero – do Tool. Você ouve os caras, é uma coisa. Você vê em entrevista, é outra. O lance deles é algo como “ a gente leva nossa música à sério, mas a gente não SE leva a sério”. Acho que no caso do Abbath é exatamente isso. “Quero fazer metal bom e sério, mas eu não me levo à sério. Eu sou só um tiozinho norueguês tocando guitarra.”

 

 

Eu vi umas entrevistas dele, sem pintura mesmo, e dá pra ver que ele é um fanfa, um thrasher.

Mordente: Um thrasher! Tanto que o disco mesmo tem muita coisa de thrash, umas coisas de speed metal também. O negócio é que a essência – a fórmula a partir da qual as músicas são construídas – é metal noruêgues anos 90. Esse disco do Abbath, quando saiu, puta merda. Escutei ele por uma semana. Só esse disco. Sete dias corridos. Só esse disco. Sem brincadeira.

 

 

Quantas músicas?

Mordente: São 8, e aí no lançamento estendido – salvo engano – 10, porque rola cover de Immortal. Nos shows ele tem feito muito cover de Immortal, inclusive. E o legal é que ele coloca como “cover de Immortal”. Não é como quem diz “ah, eu continuo sendo Immortal”. É como quem diz “eu saí do Immortal, mas faço covers porque fui da banda mas também sou fã“.

 

 

O design da pintura dele é perfeito.

Mordente: É uma identidade muito forte.

 

Ah, ele tem um nome completo, né?

Mordente: Como assim? Ah, é! Abbath Doom Occulta. É o nome científico da criatura, do frontman da banda Abbath. É uma banda sensacional, é um cara sensacional. O canal da banda no Youtube é muito bom. Não sei se saiu coisa nova. Tinhas umas sessions ao vivo das músicas do disco e se não me engano, também tem cover de Immortal. Do caralho.

É um som cru, simples, duas guitarras, baixo, batera e voz.

 

 

Será que ele está gostando de BH?

Mordente: – Cara se entendi bem, ele chega hoje e vai embora amanhã. Acho que dá tempo de gostar pelo menos um pouquinho de uma ou outra coisa.

 

 

——– 00 ——–

 

 

Enquanto imaginávamos se Abbath Doom Occulta estava curtindo nossa cidade, paramos um pouco a conversa e passamos a divagar sobre outros assuntos. Após um tempo de bobeira, chega em nossa roda o Porquinho – ídolo da banda Grupo Porco e brenfer nos Fodastic Brenfers, também apreciador do tal do black metal. Detalhe maravilhoso: ele veio com um LP do Abbath para tentar descolar autógrafos após o show.

Assim, continuamos a conversa sobre a banda ao som do próprio álbum na vitrola.

 

 

——– 00 ——–

 

Porquinho, Black metal fanfarrão, esse (Abbath) é um black metal fanfarrão?

 

Mordente: É.

 

Porquinho: Não sei se é um black metal fanfarrão…

 

Mordente: Cara, sonoramente, não. Sonoramente, é muito metal.

 

Porquinho: É muito metal, caralho!

 

Mordente: Só que feito por fanfarrões.

 

Porquinho: É.

 

Mordente: Porque black metal fanfarrão mesmo seria…

 

Porquinho: Kvelertak

 

Mordente: Isso! Kvelertak, também tem Dødheimsgard…

 

Porquinho: Pode crer.

 

Mordente: Que rola a lenda urbana de que numa época da década passada os cara tocavam ao vivo fantasiados de carro.

 

Porquinho: Até o Darkthrone nesses discos mais crust está mais cervejeiro. Nesse disco, o Abbath faz um som mais reto que Immortal. Immortal tem mais melodia black metal. Abbath é retão. Acho que uma música só, do lado B do disco, que tem esses riffs da neve. O cara caminhando na neve, tocando guitarra, sozinho lá. Esses riffs mais na segunda leva do black metal, Mayhem, Satyricon, Burzum…

 

Você está falando de quê? Fanfarronice?

 

Porquinho: Não. Essas bandas são o início. E quando o disco do Abbath descamba pro som desse início do black metal, ele vai MESMO.

 

 

Porque o Immortal tava lá mas corria por outro lado.

Mordente: Sim.

 

Porquinho: Então… eu gosto de pensar igual naquele esquema de primeira, segunda e terceira divisão. Tinha a primeira divisão – tava lá o Mayhem, Burzum, Emperor, Satyricon… O Immortal seria da segunda divisão. O black metal já existia quando eles começaram. Pensando acima, na elite squad, tem Venom, depois Bathory, Mayhem, Burzum… essas porra tudo.

 

Mordente: No caso do Immortal seria um série B que sobe pra série A. Só que é aquilo que comentei… Eles tem um negócio que como eles são contemporâneos dessa galera, eles passaram por muita coisa. Gravaram discos pra caralho.

Depois do processo de ironização de toda e qualquer cultura, muitas bandas sobreviveram. Eles não só sobreviveram como abraçaram isso. Você vê os clipes do Immortal e não sabe se eles estão se levando sério. Musicalmente é claro que eles se levam à sério, mas friso que sempre fiquei com essa impressão de que eles nunca se levaram a sério. Os clipes deles eram engraçados demais.

 

Porquinho: O Abbath é o meme do black metal

 

Mordente: É, é o meme.

 

Porquinho: Tudo que você vê que as pessoas zoam foi o Abbath que fez. Na minha cabeça ele fez aquilo tudo se levando MUITO a sério! Mas depois acho que rolou um desapego, um niilismo. Daí ele disse, “quer saber? É engraçado mesmo. Satanismo é engraçado mesmo, RISOS!”

 

Mordente: Exatamente!

 

Porquinho: “Aí velho! Estou cuspindo fogo aqui mermão, inventei esse ritmo aqui, o rock pauleira”

 

Mordente: Hahaha

 

Porquinho: Ele fala esse tipo de coisa. Ele fala que toca rock and roll. Ele não fala que toca metal.

 

Mordente: É uma coisa que a gente percebe ouvindo o disco dele.

 

Porquinho: A gente devia ir de corpse paint pra esse show!

 

——– oo ——–

 

Bem… Não fomos de corpse paint, mas fomos ao show. Uma coisa que não foi dita em nenhum momento desta resenha é que o Abbath, na verdade, era o convidado especial da turnê da banda Amon Amarth, que veio lançando disco também. Mas como nenhum de nós três curtimos o som da banda principal, nem nos preocupamos em discuti-la.

 

Chegando ao local do show, havia fila e movimentação para entrar. Uma noite de casa cheia, o que certamente faz com que os shows fiquem mais maneiros. Logo na entrada, dois de nós compramos camisetas do Abbath. Isto, por si só, dava acesso ao Meet and Greet com a banda após o show.

 

Eu comprei uma camisa, mas me senti pouco à vontade para conhecer o cara. Me aliviei ao esbarrar na ideia de mandar o Mordente no meu lugar. A estratégia deu certo, conforme vocês perceberão alguns parágrafos adiante.

 

Foto: Batista

Foto: Batista

 

O show? Porra, sinixtro demais! Não conhecia nenhuma das músicas. Achei tudo impressionante e roqueiro pra cacete. Deu pra ver que por mais black metal que seja, a raiz do cara é roqueira, então é fácil se identificar e gostar da parada. É uma banda muito maior do que o possível nicho sobre o qual deveria recair.

 

Agora deixo a palavra para o Mordente, que tem conhecimento de causa e comentou deliciosamente sobre sua impressão do show e sobre seu encontro com Mr. Doom Occulta.

 

Sem mais delongas, senhoras e senhores, Abbath em Belo Horizonte, por The Brazilian Rafael Mordente:

 

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“Amon Amarth era a razão pela qual a maioria esmagadora das pessoas foram ao Music Hall naquele domingo agradável e pelo que deu pra sacar, tem motivo pra isso. Passa longe do tipo de metal que escuto e procuro ativamente, mas soa extremamente bom do ponto de vista técnico e artístico. Sou facilmente cativado por talento e dedicação, então longe de mim passar por isto aqui sem tecer algum comentário, mínimo que seja, sobre Amon Amarth.

 

Fato é que eu e mais meia dúzia de malucos estávamos lá única e exclusivamente para testemunharmos a aparição da folclórica criatura que uma parte do mundo conhece como Abbath Doom Occulta.

 

Ganhou notoriedade na década de 1990 como frontman da banda Immortal. Sobreviveu bravamente ao processo de ironização do mundo. Se tornou meme. Abraçou isso e hoje, convenhamos, é tão grande quanto ou até maior do que o Immortal.

 

Calma, porra! Não digo “maior” em termos de importância cultural. Nem de proficiência e produtividade. Immortal tem mais de 20 anos de estrada, uai. Tem uma penca de álbuns do caralho no currículo.

 

Só que como figura, por tamanho de nome, Abbath está para o Immortal como Gene Simmons está para o Kiss. A banda que o originou é insubstituível e imensamente apreciada. Entretanto, como figura, ele se banca sozinho também. Não apenas pelo icônico corpse paint que ostenta há décadas, mas principalmente, pela capacidade absurda de criar riffs crocantes, cremosos e eletrizantes – conforme podemos atestar ouvindo seu disco solo, lançado no já distante ano de 2016.

 

Há quem diga que é revoltante ver um artista do calibre do Abbath ocupar meio palco e não ter à disposição tudo que o equipamento de som da casa pode oferecer. “Isso é coisa de banda de abertura”, diriam. Fato. No caso ali, estamos falando de um ~very special guest~.

 

Entretanto, não acho que seja revoltante. As restrições tecnológicas e de espaço físico foram exatamente do tamanho da despretensão de Abbath. Creio que, tivesse para si toda a extensão daquele palco muito bem servido do Music Hall, nosso querido troll norueguês e sua banda, ainda assim, teriam feito como fizeram Neil Young & Crazy Horse no Rock In Rio de 2001 – ocupariam propositalmente um espaço reduzido porque o importante mesmo é o entrosamento pra meter o loko no ouvido da moçada.

 

Essa despretensão se revela na forma de música: rock e metal feitos de forma séria por sujeitos fanfarrões e desapegados – além de Abbath na voz e guitarra base, a formação ao vivo da banda conta com o baixista King Ov Hell, conhecido por seu trabalho na também veterana e também norueguesa banda Gorgoroth. Além dele, há também o mascarado e rotativo posto de baterista, ocupado por “Creature”. Por fim, temos Ole André Farstad ocupando o posto da guitarra solo.

 

Ainda entrarei no mérito propriamente dito do que estou prestes a dizer, mas vamos lá: achei o setlist injusto. Calma, porra! Não falei “ruim”. Achei injusto.

 

Tivemos uma penca de covers do Immortal – e não há absolutamente nenhum problema com isso. Muito pelo contrário. O problema está no quão poucas foram as 4 músicas do disco solo de Abbath selecionadas para a performance.

 

Não convivo com a banda e não convivo com seu frontman, então posso apenas conjecturar o motivo de tão pouco destaque para um álbum tão bom a partir das coisas que imaginei. Seguem algumas hipóteses:

 

1 –  Abbath é inseguro e não acha que seu trabalho está à altura do que foi feito no Immortal. 2) Abbath é sábio e entende que não dá pra fazer dezenas de shows pelo mundo tocando apenas as músicas deste que é seu único disco, até o momento. 3) Abbath é um troll no sentido atual: deixou de fora uma penca de pedradas só pra irritar quem gosta dele, mas não conhece o trampo do Immortal.

 

 

Tá tudo bem, Abbathinho. Não precisa ficar inseguro. Você tocou To War!. Teve Winterbane também. Ashes Of The Damned. Porra, rolou até Count The Dead. E teve Immortal pra caralho também. Teve coisa do “I”. Porra, o show acabou com All Shall Fall. Ou seja: Zero reclamação da minha parte. Seleção impecável. Presença dominante. Performance energética. Execução primorosa.

 

 

Maaaaasss… porém, todavia, contudo, entretanto… injusto. Pelo menos pra mim.

 

E não digo apenas a respeito do show em Belo Horizonte. Os setlists em geral costumam preterir as músicas excelentes do disco “Abbath”. Ah! Tem uma quarta hipótese que embaso por experiência própria como músico.

 

4) Tem música ali que os caras não sabem tocar ao vivo. Tipo… ou não lembram letra; Ou não tem pique pra executar exatamente como foi montado em estúdio. Isso acontece.

 

Inclusive, vale comentar também: Ausências no setlist causa certo enfado nos músicos quando cobrados por fãs acerca das músicas deixadas de fora.

 

E agora entro no mérito disso que considero a grande injustiça Abbáthica. Fui como imprensa, me mantive antenado, tomei nota. E obviamente, me aproveitei do momento pra colar no famigerado Meet and Greet. Vesti a camisa que o Marcos comprou, mas eu mesmo nem tinha nada pra banda assinar. Só queria agradecer pelo show e ter uma fotinho com os caras.

 

Foto: Lana Domingos

Foto: Lana Domingos

 

 

Verdade seja dita, eu só DEVERIA agradecer pelo show e aparecer numa fotinho.

 

Mas não.

 

Ao ver outros fãs retornando do encontro, percebi o entusiasmo gerado pela personalidade tranquila, calorosa e afável do menino Abbath. Diante disso, o pensamento que me passou pela cabeça foi carimbado e aprovado pelo setor mental de controle de qualidade.

 

Impávido, cheguei ao local. Cumprimentei os caras. Ganhei uma palheta lindona do King Ov Hell. Aproximei–me do Abbath, que estava sorridente e estendeu a mão. Nos cumprimentamos.

 

Mais uma vez, agradeci pelo show. “Eu que agradeço”, disse o folclórico frontman, sorridente.
Eu podia ter parado ali. Mas não. Devolvi ao mundo algo que sempre me causou certo enfado nos 13 anos em que ocasionalmente, me apresentei ao vivo.

 

“Senti falta duma música, cara…”

 

O sorriso de Abbath desapareceu. Não foi substituído por uma carranca, mas sumiu. Vindo diretamente do palco, ele ainda ostentava o tradicional corpse paint no rosto. O sumiço do semblante receptivo foi perceptível por baixo das camadas de tinta. Eu podia ter ficado quieto depois disso, mas continuei.

 

“Me desculpa por ser o chato que falou isso, mas é que… eu gosto muito de Immortal, só que eu gosto PRA CARALHO do seu disco, cara”.

 

Ainda neutro, ele manteve a elegância. Respirou fundo pelo diafragma pra disfarçar o efeito físico do enfado diante de um comentário que também reconheço como desnecessário e babaca. Meu constrangimento já se preparava para recolher meus testículos cavidade pélvica adentro.

 

“Qual?”. Que cavalheiro, Abbath. Desculpa, cara…

 

Pessoalmente, quando diante do mesmo comentário, sempre respondi com a exata mesma pergunta. E sempre respondi dando a real mais real possível sobre qualquer que fosse a canção da qual a pessoa sentiu falta. “Detestamos essa música”. “Não sabemos nem começar a letra”. E por aí vai. Tudo isso sempre sorridente por causa do alívio que é poder simplesmente falar isso.

 

Enfim… Incomodei o Abbath com algo que sempre me incomodou. Jamais me perdoarei por isso. O show foi do caralho. Esfuziante. Indefectível. Porém, pra mim, injusto. Eu simplesmente precisava falar que senti falta dum som.

 

“Endless”, respondi.

 

Me reclinei sobre a vã esperança de que eu talvez pudesse deixar o recinto com a bela imagem daquele sorriso fanfarrão, caloroso e receptivo. Talvez ele voltasse ao bom estado de espírito ao ouvir menção a uma cantiga que também considera boa.

 

Não aconteceu.

 

Como quem já me aturava por horas a fio, Abbath nada disse. Aliás, talvez tenha dito. O que ouvi foi um resmungo resignado e acompanhado de um erguer de ombros, como quem diz “ah, fazer o quê, né…”. Seria esta a abertura para uma quinta hipótese?

 

5) Abbath ama tocar Endless, mas por 3 votos a 1, a canção ficou fora do setlist. Talvez uma sexta conjectura? 6) Abbath detesta tocar Endless e apesar de perder por 3 votos a 1, bateu o pé como líder e frontman, criando certa tensão para a turnê sulamericana.

 

Hipóteses e idiotices deste humilde escriba à parte, Abbath veio, viu e venceu. Após desnortear uma plateia maioritariamente formada por incautos, desapareceu em meio à névoa, como boa criatura do folclore nórdico que é. E é exatamente isso que eu faria, mas existe aqui uma pendência.

 

Não bastasse o Abbath ter colado na minha cidade, sabe quem mais vai colar?

 

ANATHEMA!!

 

PORRA CARALHO FELADAPUTA CU PINTO BUNDA CAMISINHA!!! Meu deus do céu como eu amo Anathema. Olha, vou dizer o seguinte: vi esses loucos ingleses ao vivo em 2010, na tour de lançamento do disco “We’re Here Because We’re Here”. Os caras meteram o loko e tocaram o disco novo inteiro.

 

Aí eu pensei ‘porra, eu gosto desse disco, mas isso é doidera, bixo. Tá cheio de metaleiro órfão das parada velha. Anathema era a única banda de som relativamente limpo e leve que os metaleiros admitiam curtir. Os caras chegam, veem esse monte de gente vestida de preto e metem só o disco novo? Porra, acho que só eu vou sair daqui satisfeito…’

 

Mal sabia eu.

 

1h depois de ouvir o disco novo ao vivo, os caras beberam uma breja e meteram OUTRA HORA DE SHOW, dessa vez tocando só as pedradas de 1994 a 2008. Maluco arrebentou corda de guitarra, rachou prato, deu curto em microfone. Então se você não conhece ou nunca viu Anathema ao vivo, recomendo que vá. Talvez seja uma daquelas noites.

 

Agora sim, ainda que sem o mesmo efeito dramático, haverei de desaparecer na névoa. Beijos.”

 

 

Matéria por: Marcos Batista e Rafael Mordente

Participação especial: Thiago Machado

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