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Black Sabbath – Praça da Apoteose – Por: Batista

Punknet | 08/12/2016 | Comentários desativados em Black Sabbath – Praça da Apoteose – Por: Batista | Matérias

Minha educação musical começou com os coros infantis de igreja: bem jecas, redundantes e orbitando em torno do mesmo tema: Deus é bom pra mim. No início da adolescência ouvi Paralamas e umas bandas de rock brasileiras que prefiro nem lembrar que já escutei, até me ligar mais em The Cure e Pato Fu (a encarnação dos três primeiros discos) e isso me colocou no eixo para ao fim de uma longa saga bater no peito e dizer: a única banda que realmente importa e continua influenciando e levando a coisa para frente é o Velvet Underground.

Bom, sou um indie basicamente — óbvio que sou mais que isso, mas pra definir de forma caricata é isso — e o metal chegou tarde em minha vida, e nunca bateu tão legal pois eu sempre achei a parada meio pouco original, repetitiva, sem alma, caricata, e com essa premissa fui assistir meio marrento o show do Black Sabbath no Rio de Janeiro este 2/12/16, na Praça da Apoteose.

O motivo da viagem não era o show, certamente, era estar com os chapas de banda (os Fodastic Brenfers) e ir ao Rio! E a promoção “compre um ingresso leve dois” me fez querer fácil ir nessa viagem, mesmo que ela passasse por assistir um arremedo de banda caquética tirando umas últimas granas de seu legado em cima de fãs que os aplaudiriam qualquer besteira que fizessem.

Assim, o virjão aqui foi para o Rio, pegou ônibus 7 da manhã, pagou 40 reais num almoço no Graal que não valeria nem 5 pratas, chegou na odiosa rodoviária Novo Rio, conseguiu desviar da horda de taxistas sanguinários que assediam as presas fáceis vindas de cidades onde palavras como amor, companheirismo, lealdade e alegria ainda existem, e fui parar na mão do VLT, sigla que deve significar “transporte que provavelmente custou uma nota, foi superfaturado, anda devagar, e não sabemos bem se resolveu alguma coisa da mobilidade urbana” em inglês.

Deste maravilhoso e duvidoso bonde moderno caí na estação da Carioca e rumei para Copacabana, onde ficava meu apartamento. Com a bolsa em casa e a fome na porta fui pra rua em busca de comida gostosa (no Rio? Impossível!), barata (no Rio?) e bem feita (sério mesmo que você está procurando isso no Rio?), e uma grata surpresa foi encontrar um boteco com PF de feijoada às 16h, com a melhor feijoada que comi na vida (no Rio? Ah tá, feijoada no Rio é boa mesmo), e de lá parti para o metrô, onde teria que descobrir em qual estação deveria descer para ir para a Apoteose.

Então estava com aquela leve fobia de ter que perguntar para alguém como chegar no local da bagunça. Imaginava que todos no metrô estariam cansados saindo do trabalho, e me olhariam com recriminação por estar indo em um show caça-niquel e ainda tomando os assentos deles. Para amenizar a sensação, vesti uma camisa branca com o desenho de um coqueiro, pra eles não pensarem muito sobre metal — e não deduzirem que eu estava indo para o show.

Lembra do virjão que eu sou que eu citei uns parágrafos acima? Então, quando ele entrou no metrô teve a constatação óbvia de que todo metrô estava cheio de metaleiros indo para o show, e que nem precisava perguntar onde descer, era só descer junto. E lá escutei as falas de pessoas dizendo que viram Rock in Rio, cansaram de irem na Apoteose, e que, enfim, show grande no Rio é tradição, e que eu não era o único ser dentro do metrô que estava indo para o Sabbath. Bem, tentei rir de mim mesmo, mas não consegui, tive pena.

Chegando na estação da Praça Onze, o trem esvazia, todos de camisa preta (menos eu) se apertam nas escadas e são recebidos com uma fanfarra (ah, o Rio!) tocando AC/DC, Nirvana e outras paradas meio duvidosas (Offspring, Franz Ferdinand) fazendo a alegria de geral. Eu me comovo fácil com fanfarras, e essa quebra de expectativa e bunda de fora eterna que a cidade proporciona só me fez mais feliz. “Aposto que esta fanfarra vai ser a parada mais legal que vou escutar hoje”, pensei satisfeito, enquanto encontrava os bróders no ponto combinado e partíamos naquela balbúrdia de gente, vendedor, seguranças e urina, rumo à entrada do show.

Chegando lá, primeira surpresa: nem olharam nossos ingressos. Fiquei enormemente bolado, pois se estava entrando qualquer um, qual segurança eu teria lá dentro? E se dava pra entrar assim, porque eu fui trouxa de pagar? Todo caminho da primeira bilheteria até a segunda bilheteria (onde de fato os ingressos eram cobrados e os seguranças apalpavam minhas partes com luxúria e prazer) eu pensava em desistir, em voltar, em pedir para o show acabar logo e eu ir embora, até que, como dito, vi que tinha sim uma bilheteria e o Rio não é essa bagunça toda, afinal o big business do showbusiness passa por lá.

Chegando no local estava tocando uma banda de abertura, horrível, chamada Rival Sons. O que posso dizer sobre ela é que em seus melhores momentos parecia Scorpions, e em seus piores, Led Zeppelin. Triste.

Voltando às alegrias de um show no Rio: os banheiros foram rápidos de acessar, eu não tomei nenhuma cerveja, mas vi que tava fácil e farta, e o carioca é mais fanfa que o paulista. Assim os metaleiros de lá usam bermuda, riem, adoram satanás, não são carrancudos e nem querem viver num mar de dor, tortura e depravação. Eles só querem curtir música, e isso dá aos shows na capital carioca um clima ameno e prazeroso que sempre é difícil em São Paulo, onde para mim o público é mais tenso e pouco relaxado.

Bem, como não sou lá fã da banda e estava à passeio, não ia entrar na turba delirante, e acabei ficando pra trás da torre da mesa de som, mas minha altura e os telões propiciavam uma excelente visão do palco, agora era esperar a banda tocar para ver se o som estaria bom.

Bem, eu, o virjão que já foi fã de Pato Fu, que estava lá esperando o idiota do Ozzy para criticá-lo, e que sabia que pelo menos veria alguma dignidade nas figuras de Iommi e Butler para compensar, estava distraído quando começou a vinheta de abertura do show, um batidíssimo vídeo em que um demônio nasce de um ovo e destrói uma cidade, e então a banda aparece, pega os instrumentos, e tocam “Black Sabbath” com todo mundo gritando e aplaudindo aquele grande clichê.

E eu comecei a chorar.

Eu nunca tinha visto ou escutando nenhuma banda fazer algo como aquilo. Que porra de Cure, Beatles, Mahler, Kraftwerk ou Tom Jobim o quê! É Black Sabbath mermão! Black Sabbath que é foda!

A gente está acostumado a ver gente idosa fazer umas paradas ditas de jovens, como pular de bungee jump, tatuagem, ser DJ, essas bobagens, mas gente nova fazendo coisa de gente idosa é meio raro, ah não ser quando são jovens fazendo crochê, jogando bocha ou curtindo metal. Porque metal é coisa de gente velha, metal nasceu em 69, os caras que criaram estão quase passando a faixa dos 70. Aqueles homens e mulheres com mais de 50 no metrô rumo ao show estavam no lugar certo, indo fazer coisa de gente da geração deles. Ouvir metal. Os jovens que estavam indo eram intrusos, pegando carona numa viagem que não era do tempo deles. Tentando viver algo que não dava para recuperar porque o tempo já passou, e eles nem eram nascidos.

E eu via o show maravilhado, nunca ouvi uma guitarra soar daquela forma, tudo tão pesado, tenso, irado, me enchia de tensão, e o palco muito bem montado me fazia ver o show como num DVD, tirando a falta de conforto de não estar em casa. Aí pintou o primeiro baseado da noite, e o famigerado “stoner rock” que se diz filho dos Black Sabbath fez todo sentido.

Eu estava com os amigos do Fodastic Brenfers, mas ainda estava careta. Comecei a fumar uma série interminável de becks em “Into the void”, e lá fui eu nesse void, admirar uma parte do telão dar pau e rir porque afinal estávamos no Rio e a produção, apesar de fera, é intrinsecamente mambembe. Também achar graça do público cantando os riffs e imaginar o quanto os músicos não ficam loucos ao ver isso acontecer do palco.

O público foi lindo, educado pra caralho, de onde eu estava não tinha aperto, ninguém falava durante nem entre as canções, causando aquela agradável sensação de ouvir música em um show — coisa tão rara atualmente. E eu olhava pro Ozzy e via que além de um puta cantor para aquele som do Sabbath, ele era o clown perfeito para a situação, pois com a sucessão de músicas o clima vai ficando tão pesado, opressor, black sabbath, que se não tiver ele pra dar um alívio cômico haveriam mortes, suicídios, exaltações. De fato alguém precisa aliviar a pressão que se forma. Ponto para o Ozzy, quem o virjão aqui achou que ia dar pra trás.

Veio então “War Pigs”, que é imensa ao vivo, e na apresentação da banda o público tentou cantar os nomes de Geezer Butler e Tony Iommi numa métrica que não encaixava como quando se grita “Ozzy, Ozzy”, me causando enorme prazer em ver gente adorando ver gente que está adorando tocar.

Entre um “We love you” e outro dito por Ozzy, surgiram “Snowblind”, “Rat Salad”, “Fairies wear boots”, e, pra minha ascensão ao paraíso, “N.I.B”, quando enchia a boca pra cantar “Look into my eyes, you’ll see who I am, My name is Lucifer, please, take my hand”, e o menino evangélico cantando corinhos de igreja dizendo que deus é 10 foi chutado pra longe! Obrigado caras!

Chegou a hora do solo de bateria, chegou a hora de retirar os 3 senhores do palco e colocá-los num balão de oxigênio, e o tal Tommy Cufletos fez alguns movimentos impressionantes. Mas na real imagino que nada mais eram que exercícios rotineiros dele executados em público, com um momento ou outro de improviso. Era tudo muito limpo, mas tinha feeling na maior parte das vezes. Achei que a Apoteose recebeu um grande percussionista por uma noite, e que deve ter deixado as jovens guardas do samba de cabelo em pé.

Fim do frenesi do solo, início do frenesi de “Iron Man”, seguido de “Dirty Woman”, “Children of the Grave” e o bis “Paranoid”. Uau, que show, senti falta de algumas músicas, mas na verdade não senti falta de nada, estava tudo ali, o mojo dessa grande concepção de blues lento e sombrio feito em Birmigham, longe da alegria da Swinging London e San Francisco, dando um abraço à prostituição, fome e asfalto na Nova York do Velvet.

Minha vida mudou, nunca mais escutarei metal meia boca, música rápida só se tiver uma enorme razão de ser. Clima sombrio? Me prove que é mesmo sombrio.

E contrariando tudo que aprendi quando criança, quando a gente adora o capeta se dá muito bem, pois na saída do show peguei com os amigos um ônibus vazio e fomos sentados até o Largo do Machado saborear umas deliciosas pizzas.

O virjão aqui ficou um pouco mais esperto. Obrigado Black Sabbath, Pdro Maia, Vanessa Magon, Raul Lanari, Mariana Lobato e Pedro Veloso por estarem lá segurando um beck comigo.

P.S: Na volta esqueci meu celular dentro do táxi e só percebi quando ele já havia partido. Vacilo ou um lembrete do quê acontece quando se adora uma banda do diabo?

 

 

Por: Batista: http://memorialbatista.tumblr.com/

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