15/09/2009 | por Pacha Urbano
Quando se está entrando na adolescência, passando pelo estranho laboratório da puberdade, o mundo é um lugar muito, mas muito excitante. Para onde quer que você olhe há estímulos sexuais bombardeando você. Chegava a ser cruel.
Na TV os programas eram recheados de todo tipo de mulher boasuda mostrando as coxas, as bundas e os decotes. Era a “Bonitinha Mas Ordinária” sendo currada na Bandeirantes, era a Giulia Gam de corpete no “Que Rei Sou Eu”, era a Madonna gemendo em “Justify My Love” na MTV, era a Cheetara, a Teela, a She-Ra e até a Sininho nos desenhos animados, todas ganhando conotação erótica na cabeça daqueles jovens com os hormônios saindo pelos ouvidos (como narrado em NNR #005).
Parentes e amigos próximos acompanhavam atentamente as bizarras transformações que se davam naqueles impúberes garotos no final dos 80 e início dos anos 90. Mudanças de voz, acnes, buços, pêlos nas axilas. Era horrível!
Eu tenho um tio que na ocasião era uma espécie de fiscal dos hormônios. Era o sujeito que nas festas de família ia passando a revista nos meninos, tornando nossa existência miserável.
– Deixa eu ver este piru, aí! Já nasceu pentelho? – e dava aquela puxada forte nas nossas braguilhas.
Ou então:
– Tá com peitinho, heim, seu punheteiro! – falava isso alto, beliscando nossos mamilos.
Um verdadeiro pesadelo.
Certa vez aproximou-se de mim e da minha mãe e disse:
– Este garoto tem que comer alguém. Já viu como a cara dele está? É espinha pra tudo que é lado. Isso faz mal!
– Mas que bobagem! É da idade. – dizia minha mãe.
– Bobagem nada. Isso empedra no organismo, depois vira espinha, ou então se aloja tudo no saco, é um horror. Vou levar este garoto num puteiro! Precisa expelir essa coisa.
Não é preciso dizer que nas semanas que se seguiram a esta conversa eu fiquei completamente paranóico. Ouvia um barulho no portão e já achava que era meu tio chegando, pronto para me ajudar neste desentupimento das vias venéreas. com alguma prostituta estranha e feia. Sentia medo. Sempre que ouvia dizer que ele estava em algum lugar eu ia para outro. Porém, no meu íntimo, a idéia era excitante mas nunca chegou a acontecer.
E lá se iam os pêlos crescendo nas mãos, pedrinhas nos peitos, espinhela caída, pneumonia e até anemia, tudo para assombrar aquela geração de onanistas que se formava. Um após outro os colegas na escola voltavam das férias transfigurados. Formavam-se legiões de mutantes adolescentes sedentos por intimidades sexuais.
Mas as meninas voltavam completamente diferentes, o que para a gente era um suplício. Como se fôssemos cães diante daquelas vitrines com os frangos girando, víamos aquele desfile de seios eclodindo por baixo das blusas de tergal, ou as popinhas das nádegas escapando à opressão dos shorts de elanca das aulas de educação física, sem termos a devida coragem – e na maioria dos casos – habilidade de usufruirmos daquele manancial de novas experiências, de territórios por conquistar.
Foi assim que certo dia minha prima, que estudava comigo na mesma escola (vocês leram isso em NNR#006), me disse que tinha uma colega de turma que queria me conhecer.
P. tinha 13 anos, era trekker, apaixonada por livros, Beatles e HQ, era a garota que todo NERD como eu gostaria de ter nos braços. Lembrava a Claire Danes em “Minha Vida de Cão”, ou seja, chata e complexa, tudo o que um garoto com testosterona saindo pelo ladrão evita.
Passávamos horas conversando sobre todo tipo de assunto, de filmes como “Sociedade dos Poetas Mortos”, ou discutindo os paradigmas das Leis da Robótica de Isaac Asimov. Presenteava-me fitas cassete mixadas, traduzia as letras de David Bowie pra mim, me escrevia cartas. Aos olhos de todos ela estava apaixonada, porém, aos meus olhos nós éramos bons amigos e nada mais.
Enquanto isso eu me entregava às paixões platônicas pelas garotas que não estavam nem aí para mim, ou as que não só não se importavam comigo como me humilhavam diante dos outros, me fazendo voltar pra casa e escutar meus discos velhos horas a fio (confessado em NNR#002), sofrendo pela indiferença das lascivas e vis gostosas.
Via o ano correr apressadamente, os meus quinze anos se aproximar na outra extremidade e eu continuava sem ter beijado ninguém. Entretanto a minha sorte estava a um passo de mudar.
No curso de datilografia que eu fazia num bairro próximo ao meu, havia uma garota chamada L., 15 anos, de pêlos dourados que subiam de suas costas até a nuca. Sabia disso porque me sentava numa fileira atrás dela, e muitas vezes, quando ela amarrava seus cabelos num coque preso com um lápis borracha, via seu pescoço claro como a neve, e errava uma vez atrás da outra.
Entre um ASDFG e outro, ficava observando o seu perfil, os dedos percorrendo pateticamente as teclas, como uma galinha a catar milhos no quintal. Hipnotizado, trepava uma letra na outra, comia sílabas, vivia preso nas lições por semanas.
Certa feita, na hora do intervalo, estava observando uma moréia passear desajeitada por um aquário sujo que tinha na loja de produtos para animais do lado do curso de datilografia, e ela aparece do nada me convidando pra ir na padaria.
Comia uma cavaca enquanto ela comia um sonho e tudo ia bem, até que comecei a notar que ela era daquelas pessoas que falavam muito perto da gente, uma distância que se não fosse por ela ser uma gatinha seria um incômodo. A conversa estava animada e ela foi se aproximando mais e mais, e falou pra mim:
– Tem uma migalha aí no canto da sua boca. – chegando ainda mais perto para tirá-la.
É a deixa, pensei. E investi um beijo.
Acontece que havia um maluco por Bento Ribeiro que gostava de agarrar as garotas pra tentar beijá-las. Ele lembrava aquele robô maluco que puxava as penas do Pica-Pau, meio prognata, meio vesgo. O motivo do convite era que ela estava com medo de ficar sozinha no balcão da padaria podendo ser vítima do ataque do doido. Eu era apenas uma marionete.
Vendo meu rosto crescer no seu campo de visão ela instintivamente recuou, me segurando pelo ombro com a mão livre.
– O que você tá fazendo?
– Desculpa... eu ia te beijar.
– Me beijar? Você está maluco?
– Você estava chegando tão perto, olhando pra minha boca, pensei que...
– Você tá doido, garoto! Eu sou surda! – e levantou os cabelos que cobriam sua orelha direita, mostrando o seu Aparelho Auditivo Telex.
Chegou o inverno e começaram a aparecer festinhas juninas de rua em toda parte, e eu pensei: é agora ou nunca. Porque as festinhas de rua eram uma boa oportunidade de ficar com alguém, já que todos estavam de férias e os lugares costumavam lotar. Além, claro, das caipifrutas, inocentes coquetéis de frutas regados com cachaça ou vodka que podíamos tomar e com isso deixar a vergonha de lado. Os tempos eram outros. Enfim, a sorte tinha sido lançada.
Já começava julho e eu continuava no zero a zero, enquanto que meu primo, com quem andava nestas festas, já tinha uma lista enorme de garotas beijadas. Estava ficando pra trás, precisava revidar.
Foi quando conheci M., 12 anos – mas parecia ter mais –, através deste meu primo. Na verdade, ele foi muito claro comigo:
– Tá vendo aquela garota lá?
– Tô sim. O que tem ela? – Claro que eu a tinha visto, passara a noite toda olhando pra ela.
– Você não vai lá falar com ela não?
– Eh... bem... acho que não...
– Se você não for eu vou lá dar idéia nela então.
Gelei.
– Vai mesmo? Ela nem faz o seu tipo. – Tentei dissuadi-lo.
– Ah, e daí? É a mais bonitinha até agora. Me dá uma freegells aí. – Este era o sinal de que ele estava realmente determinado, porque já queria chegar com seu hálito refrescante na hora da idéia.
De longe o vi desenvolvendo o papo, ela meio que fingia que ele não estava lá, mas ria. Meu primo sempre fora bom nisso. Tava vendo que ela ia cair, entretanto, ele voltou pra onde eu estava, com aquela cara de “não deu”.
– Ué, já voltou?
– Você não viu? Ela não me deu nem atenção, me esnobou. Se eu fosse você ia lá.
– Ah, se ela não nem te olhou, vou lá fazer o quê?
– Cara, deixa de ser burro. O que o cu tem a ver com as calças? Vai lá logo.
Não fui, obviamente, mas nos encontramos diversas outras vezes naquela mesma festa nos finais de semana que se seguiram. Mas foi já no final daquele julho que a encontrei numa outra festinha de rua.
Meu primo me deu aquela cotovelada nas costelas me apontando onda ela estava. Gelei. E ele me ameaçou:
– Se você não for lá falar com ela eu vou lá e digo que você tá afim dela. Mas vou te zoar pro resto da vida.
– Tá, vou lá falar com ela.
E fui mesmo. Mas ela fez comigo o mesmo que fez com o meu primo, ignorando completamente a minha presença. Só que de longe ele me observava, como quem toma conta de um cachorro na hora da cruza.
Conversamos por um tempo e conquistei a atenção dela, mas já tinham se passado os quinze minutos de tolerância, o limite invisível que separa o interesse sexual da amizade, e eu havia cruzado aquela faixa, era o meu fim. Virei amigo.
Virei mesmo. Mas estava apaixonado, e passei a freqüentar sua rua, seu prédio, a porta da sua escola, sua casa e algum tempo depois os seus pensamentos. Só que eu não via isso.
E num dia em que eu já havia perdido as esperanças e me despedia na porta da sua casa, virei pra ela disse:
– Sei que você não vai gostar de ouvir isso, mas eu não queria ser seu amigo.
– É, eu sei disso.
E nem terminou de falar e se aproximou tão perto de mim que eu senti sua respiração no meu rosto. Jogou os braços em volta do meu pescoço e encostou sua boca na minha.
Sinos tocaram, fogos de artifício espocaram no céu, vulcões erupiram, flores desabrocharam, passarinhos cantaram e anjos disseram Amém dentro da minha cabeça.
Eu ainda tinha catorze anos.
Era o meu primeiro beijo acontecendo.
Era o começo de uma nova era.
Até que eu conheci L. e R., 15 e 16 anos respectivamente, responsáveis pela biblioteca da escola, que gentilmente me apresentaram a promiscuidade.
Mas aí já é assunto para uma outra coluna.
P.S.: E para aqueles que quiserem escrever para este NERD que vos fala, mandem emails para pacha@pachaurbano.com. Prometo responder a todos vocês mesmo que seja no Ctrl+C Ctrl+V! =)
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