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Correndo em círculos, DFC e Edna – Por: Gabriel Coiso

Punknet | 28/05/2017 | Comentários desativados em Correndo em círculos, DFC e Edna – Por: Gabriel Coiso | Matérias

Já de dentro do ônibus, passando pelo Memorial da América Latina (região da Barra Funda, São Paulo/SP), vi um grupo trajando coletinhos cheios de patches e bonés com a aba levantada. Desci do ônibus e, na caminhada até a Clash Club, a cena se repetiu em bares e numa pracinha da região. Até quem passava desavisado percebeu que alguma coisa aconteceria por ali.

 
Dei a sorte de entrar na casa e já logo em seguida pegar o começo do primeiro show dos sete que rolariam naquele fim de tarde/começo de noite.

 
IMG_2710Apenas luzes vermelhas no palco, no telão ao fundo, imagens de Karl Marx, Angela Davis, Carlos Marighella, Martin Luther King. A banda já estava tocando, mas tinha mais coisa, mais vermelho no palco: dois caras em pé no fundo, com os rostos cobertos por panos rubros, um deles segurava uma bandeira com o logo da banda: pano vermelho, foice e martelo amarelos. A banda? VMR, Vanguarda Metal Revolucionária.

 
Mais do que um show de Metal Punk com vocais que remetem à linguagem do Rap, um ato político. Banda nova (está para lançar o primeiro EP) que surge num momento de “Direitização” de espaços que deveriam ser libertários – ou, no mínimo, de questionamento da ordem e da moral burguesas.

 
Rápido intervalo – aliás, já falo isso no começo da resenha: parabéns aos envolvidos na produção do evento (Cospe Fogo Gravações, Loja 255 e Kool Metal Fest) que colocaram sete bandas excelentes para tocar sem longos intervalos e sem perrengue algum – e a “Sem Hastro” já estava no palco.

 
Bicho, porrada cadenciada e sujeira nos ouvidos. Guitarra com distorção, baixo com distorção, até o vocal parecia ter um Fuzz plugado na garganta, e uma bateria, hm, gostosa, no pique Black Flag, Hard Core Washington DC 80’s, sem deixar o som descambar para a porrada extrema e nem ficar no marasmo tranquilo. Hard Core ao ponto.

 
Aliás, fiquei ali no canto vendo a apresentação, tentando definir o som da banda quando, já na última música do show, um jovem rapaz de dreads nos cabelos, com uma corrente plástica em amarelo e preto (dessas de fila de banco) amarrada na bermuda cortou a pista correndo, jogou a mochila no chão e pogou por alguns segundos com mais uma dúzia. Terminado o show, o figurão deu tapas no palco e repetiu diversas vezes: “Hard Core Intenso”. Talvez essa seja uma boa definição pro show da “Sem Hastro”.
 

De uma guitarra Flying V branca surgiu um riff tão rasgante, que talvez cortasse uma jugular. Bumbadas que dava para sentir no peito, como se uma combinação de “tóxicos” (utilizados por livre e espontânea vontade) fossem explodir o coração, vinham lá do fundo do palco. De um baixo de cinco cordas, linhas tão pesadas quanto atômicas, digo, harmônicas. E pra fechar a composição da banda, um vazamento radioativo de grandes proporções, digno de um acidente Chernobiliano, inundou a pista por meio de um vocal fortemente ácido.

 
IMG_2713“Santa Muerte”, que banda! Três jovens garotas que dominam muito bem seus instrumentos, os acelerados tempos das músicas e, sobretudo, seus referenciais de Thrash & Crossover para criar um som novo, diferenciado, cheio, sujo, pesado, vívido. Caso as sensações de acidente nuclear, parada cardíaca ou explosão atômica que senti a partir do som das minas realmente nos levasse a óbito, seria, de fato, uma “Santa Muerte”.
 

A casa foi enchendo aos poucos, muita gente que saiu do trampo no meio ou fim da tarde foi direto para lá, chegou só pelas 19h, tendo perdido os primeiros shows.

 
Com a casa com bastante público, que desde o show da “Santa Muerte” já corria em círculos pela pista, transformando-a no tão celebrado “Circle Pit”, rolou a virada na chave de 110 para 220 com a apresentação da “Cerberus Attack”. O show da “Cerberus” começou com três ou quatro músicas em seguida, sem parar, sem respirar, sem dar tempo ou mesmo vontade da galera interromper a correria circular, que, dali em diante, se manteve sem parar até o fim dos shows.

 
Thrash Metal sujo, vocais que transitam entre agudos lancinantes e graves estremecedores. Músicas repletas de riffs e solos, solos e riffs hipnotizantes. Showzaço!

 
Aí começou alguma coisa totalmente diferente. Uma moça de traços asiáticos gritou no microfone alguma coisa em alguma língua asiática, e ela e mais três mulheres começaram a fazer um som pesado, que me lembrou as “Longas” introduções de álbuns do Grindcore. Fiquei ali esperando uma das três se aproximar de um dos quatro microfones espalhados pelo palco e começar a berrar quando, Jesus, pula no palco um sujeito vestindo apenas meias, short de lycra e balaclava. Sem camisa, tinha nos peitos dois “Xis” e na barriga uma cruz invertida feitos com fita isolante. Pegou um microfone e começou a berrar. Doidera.
 

E doidera das bravas. “Gore Grind Metal Funk” foram termos utilizados pelo rapaz para definir o som da banda. Uma baita ruptura no que vinha sendo o estilo das bandas na festa, e que foi muito bem recebida pelo público. Nas músicas de ritmo mais marcado, o pessoal corria, mas em geral, era tanta quebra no som, que a maioria ficou apenas olhando e rindo. Aliás, rindo, pois a ironia refinada das letras e piadas entre músicas pede que você ria. “Crotch Rot”, de Curitiba/PR, é o nome desse abalo sísmico, procure.

 
Se me perguntarem quais os melhores álbuns lançados em 2016, colocarei o “Tamo na merda”, do “Surra”, na lista. Daqui uns anos ele poderá ser usado em aulas de História para explicar, sem censuras “globais”, o que ocorreu no Brasil entre 2013 e 16.

 
IMG_2715Ainda não havia visto a banda ao vivo, e o show deles é um absurdo. Metralhadora de riffs e gritos e velocidade e, sobretudo, verdades: holocaustos diários promovidos por policiais nas periferias, a cultura do estupro, o roubo de merenda, a falsa “Meritocracia”, a necessidade de uma revolta popular contra as oligarquias de poder que usurpam o poder (“Michel Temer, velho safado, não vai ter boi!”).

 
Passei a noite evitando entrar no Circle Pit, pois estava com meu corpo dolorido: no dia anterior caminhei por cerca de dois quilômetros carregando no ombro a minha cesta básica (espécie de “Merenda de adulto”, que o Alckmin [ainda] não roubou). Mas foi impossível não guardar os óculos na mochila e me colocar a correr em círculos.

 
Aliás, foi durante a correria que senti algo enroscar em mim, como que caindo da mochila, mas não liguei muito, e segui correndo em círculos.
Último intervalo da noite, e logo que mudaram a imagem no telão do logo do “Surra” para o logo do “DFC”, e do amplificador emanou a passagem de som com a distorção mais suja do que “O gosto da minha botina, suja de bosta do chão lá da esquina”, todos os jovens que estavam dispersos pela casa voltaram a se juntar na frente do palco. A Clash não chegou a ficar lotada, mas a pista estava tão cheia e pulsante quanto já vi em shows de bandas gringas – continuam valorizando as bandas nacionais!

 
Mal Túlio anunciou o começo do show de “Músicas românticas”, a roda já foi novamente aberta e a correria (des)andou a recomeçar – sério, fiquei um tempão observando o Circle Pit, e teve jovem que, ao longo de cinco ou seis shows, deve ter percorrido o equivalente a uma São Silvestre.

 
IMG_2709Aliás, “Andar em círculo” é uma expressão frequentemente utilizada para se referir a pessoas que não saem do lugar. Agora, o Circle Pit dessa gloriosa noite repleta de shows, me revelou outro significado para o termo. Foram sete bandas, completamente diferentes entre si, e tendo em comum (além de algumas influências) o próprio Circle Pit. Há muita diversidade e muitos locais distintos acessados no ato de correr em círculos por esses jovens de bandanas amarradas no crânio.

 
Dado momento do show, enquanto resolviam algum perrengue da bateria, Túlio perguntou quem estava em show do DFC pela primeira vez, e uma boa quantidade de mãos foi erguida na frente do palco. Eu estava bem no meio da pista, e por algum instinto de curioso, olhei para trás: apenas duas pessoas ergueram seus braços. Caiu-me a mais óbvia das fichas: o DFC está no seleto hall de bandas que já atravessa (ou dialoga com) diversas gerações. Dos jovens enérgicos e inquietos pulando do palco, aos jovens grisalhos apoiados no balcão do bar.
Mais ainda, e isso ficou claro na fala emocionada da vocalista do “Santa Muerte” (“Nunca na minha vida eu me imaginei tocando com o DFC!”), trata-se de uma referência. Em um trocadilho com a hierarquia religiosa, o DFC é uma dentre as seletas “Entidades canônicas” do Crossover brasileiro.

 

E que show espetacular! Tocaram desde músicas da primeira demo tape, “Erramos ao mesmo tempo agora”, de 1993, às faixas do último long play, “Sequência animalesca de bicudas e giratórias”, lançado em 2014. Como é comum às apresentações da banda, músicas de denso teor político intervaladas por falas de profundo senso irônico – algo próximo à célebre frase atribuída a Che Guevara, de que “Há que endurecer, porém, sem perder a ternura jamais”.

 
Por fim, o clássico dos clássicos da banda foi tocado para fechar o show: “Molecada Meia Meia Meia”, música devidamente acompanhada pela tradicional invasão de palco por parte dela, eles mesmos, a Molecada Meia Meia Meia.

 
Bom, a resenha já acabou, mas preciso escrever mais alguns parágrafos para lhes falar sobre a Edna, ou como ela é chamada pelos amigos, a “Nega”. Rolou um papo durante o rolê de que havia nazis no entorno da Clash e, no boca a boca, o pessoal se organizou para ir embora em grupos. Como não estava interessado em apanhar de pilantra, apressei-me para acompanhar uma galera.

 
No entanto, quando já estava quase saindo da casa, reparei que minhas chaves não estavam no bolso lateral de minha mochila, e bateu-me um leve desespero: “Talvez tenha sido isso que enroscou em mim durante a roda no show do ‘Surra’”, pensei.

 
Voltei na pista, conversei com seguranças, com a rapaziada que limpava a casa, com a moça da chapelaria, as moças do caixa, o pessoal do bar, bombeiro na porta. Nada. Já pensando debaixo de qual viaduto passaria a noite, foi ela, Edna, a chefa da segurança, quem se aproximou de mim e disse: “Você vai me amar hoje”, e mostrou-me as chaves em suas mãos. Edna, essa resenha é dedicada a você!

 

 

Por: Gabriel Coiso

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