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Dead Fish, o Hangar e Douglas “Crazy”: La Raza, Diabo Verde, Abraskadabra e Dead Fish no Hangar 110

Punknet | 16/01/2017 | Comentários desativados em Dead Fish, o Hangar e Douglas “Crazy”: La Raza, Diabo Verde, Abraskadabra e Dead Fish no Hangar 110 | Matérias

Leitoras e leitores, a mão treme. As duas, aliás. Elas tremem pela vontade de digitar a frase “O começo do fim” como título desta resenha. Tremem, e ficarão tremendo, pois não darei esse destaque aos shows da La Raza, Diabo Verde, Abraskadabra e Dead Fish realizados no último sábado (14/1/2017), no Hangar 110 – primeira data de funcionamento do prenunciado “Último ano de atividades” da casa.

Tem tantas perspectivas para olhar para essa noite, como: a primeira de duas datas em que o Dead Fish tocou, na íntegra, o álbum “Um homem só” no Hangar; a noite em que quatro bandas de quatro estados diferentes tocaram no palco; ou, ainda, que talvez esse tenha sido o mais eclético line de bandas que já vi pelo palco da Rua Rodolfo Miranda.
Entrei acreditando que estava atrasado, mas não estava. E pude presenciar o instante em que o DVD do Garage Fuzz no telão foi interrompido e a luz branca foi lentamente apagada, dando lugares a um som de sirene e uma luz vermelha. A cortina abriu e tinha um rapaz atrás de umas pick ups controlando o som da sirene: “Banda com DJ? Isso eu nunca vi no Hangar”.

 

Foto: Marcello Orsi

Foto: Marcello Orsi

Em um show rápido e rasteiro, a La Raza (de São Paulo/SP) percorreu a enormidade de referências que compõem suas músicas, que mesclam subgêneros distintos do Rock, Hard Core, Hip Hop e Funk. E como isso? Tem um instante que você percebe que os meninos gostam de Suicidal Tendencies, os riffs na guitarra, a levada do ritmo, mas, logo em seguida, na mesma música, dá para perceber também uma atenção aos Racionais MCs e ao Rap.
Confesso que não me surpreendi com as duas versões que tocaram, de “Sabotage”, do Beastie Boys, e “Bulls on Parade”, do Rage Against The Machine. Extremamente alinhados com a proposta sonora e as mensagens políticas da banda.
“Esse lugar vai fazer muita falta”, falou Panda, vocal da banda, em dado instante do show.
Em seguida veio a Diabo Verde, sem dúvida uma das bandas mais bacanas que conheci em 2016. Hard Core puro sangue, com aquele sotaque unicamente carioca.
Como se tratava de dia de show do Dead Fish, a casa encheu mais do que tem sido comum, e também encheu mais cedo: logo na segunda banda já tinha gente colada no palco e gente tropeçando em gente no fundo da pista. A Diabo Verde tocou para um baita público, que não se privou de participar do show, fosse minimanete prestando atenção nele (celulares ao bolso, olhos e ouvidos atentos), fosse se valendo da aceleração das músicas para uma e outra saudável troca de empurrões.
Foi notável que lá no palco os rapazes sentiram essa energia, e a todo instante, visivelmente emocionados, agradeciam ao público pela recepção calorosa. Para quem ainda não ouviu o recém lançado álbum deles, “Veni, Vidi, Vici”, vale a pena procurar – mas já anuncio que em breve o resenharei por aqui.
“Alemão, continuo torcendo que você mude de ideia”, falou Paulinho, vocalista da banda, em dado instante do show.
Daí encontrei-me com um bom conhecido, jovem que já escreveu boas resenhas para o Punknet, papo que vai, papo que vem, começou uma sonzeira que me fez interromper a conversa e olhar para o palco: “Rapaz como assim tem seis caras no palco e esses sons de metais de sopro?”. Era tanta energia que parecia que tinham colocado a usina de Itaipu no palco!
Senhoras e senhores, que banda! Colocaram a galera para dançar (ou algo próximo disso). Um som bem puxado para o SkaPunk, Hard Core com melodia, sopros e remelexos nos quadris.
Muitos da turma do “Vou entrar só para ver o Dead Fish” entravam e já lançavam comentários positivos sobre a banda, mas o show já estava no fim. Que ao menos os que me perguntaram “Que banda é essa?” a procurem pelas ondas virtuais.
“E que essa não seja a última vez que a gente toque aqui”, falou Buga, vocalista da banda, em dado instante do show.
Durante um longo intervalo de quarenta minutos, utilizados pelo Dead Fish para arrumar o palco, o telão reproduzia um DVD do Sugar Kane, e foi bem bacana que por alguns instantes deu para ouvir um monte de gente cantando as músicas. Tem banda que “Encerras as atividades”, mas não acaba.
“Eu não acredito que isso aqui vai acabar, esses aqui são nossos dois últimos shows antes da casa acabar”, falou Rodrigo, vocalista da banda, no preciso instante em que as cortinas se abriram.
Dali em diante o que se desenhou foi um cenário deliciosamente caótico, típico dos shows do Dead Fish, mas agravado em razão das especificidades da casa e da data. Gente como uma jovem com quem conversei durante o intervalo antes do show: “Você veio por que vão tocar o ‘Um homem só’ inteiro?”, “Não, nem gosto desse álbum, queria ver o Dead Fish aqui só, nunca vi”.
Foi o “Um homem só” inteiro, de cabo a rabo. Um álbum complicado, não muito bem quisto, mas de inegável valor – ou como disse Rodrigo, “Odiei fazer esse disco, mas hoje acho ele respeitável”. Esse respeito estava lá, com o pessoal cantando a plenos pulmões “Rei de açúcar”, “Destruir tudo de novo”, “Couraça”, “Diesel”. Aliás, gostaria de dar atenção (e máximo respeito) aos timbres que o rapaz Rick tirou da guitarra, a parte os problemas com as caixas de som, a guitarra soou a noite inteira o “Puro creme da guitarra madura”.

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Foto: Marcello Orsi

Após a catarse coletiva que foi a execução da faixa título do álbum, Marcão, lá de trás de sua exuberante bateria, deu um recado para os presentes: “Escutaram o ‘Homem só’? Legal, quem dançou, dançou, quem não dançou não dança mais”, e aí começou uma espécie de “Dead Fish Fashion Week”, com o desfile de sons dos demais álbuns da banda.
“Siga”, “Just Skate”, “Viver”, “Revólver”, “Paz verde”, “Selfegofactoide” e um monte de outras. Tocaram “Tango”, a pedido duma garota que levou um cartaz com o escrito: “1º Fora Temer, 2º Toca ‘Tango’, 3º Minha mãe tá aqui”, e que subiu no palco (junto com sua mãe) para cantarem a música. Hard Core para todas as idades. Fecharam o show com “Mulheres negras” e “Afasia”.
Talvez tenha sido “O começo do fim” do Hangar – não sei, a casa inaugurou um bar novo sábado – talvez tenha sido só mais um show do Dead Fish, talvez tenha sido um dos primeiros grandes shows das bandas que abriram a noite (que podem vir a se tornar “Grandes bandas” do rock nacional). Talvez tenha sido isso tudo.
Ps.: deixo uma saudação especial ao Douglas “Crazy”, motorista de microônibus, trabalhador (“Tô trampando desde as cinco da manhã”), que, ao me ver correndo para embarcar no carro, o segurou por um minuto a mais no ponto inicial, garantindo que eu chegasse em casa mais cedo. Obrigado Douglas, por essa breve micropolítica.

 

 

 

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Texto: Gabriel Coiso

Fotos: Marcello Orsi

 

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