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Duas bandas gringas e uma noite absurda

Punknet | 16/10/2017 | Comentários desativados em Duas bandas gringas e uma noite absurda | Matérias, Uncategorized

Neste começo de outubro duas bandas gringas desembarcaram aqui no Brasil para fazer uma dezena de shows. Tudo no esquema do perrengue do it yourself: alugaram uma Kombi e percorreram parte do Sudeste e do Sul do país. Quatro norte americanos simpaticíssimos que compõem o Dowsing, a Marcela e o Marcelo (ex-E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante), paulistas que foram morar na quebrada da Margareth Tacher, e por lá criaram o CabraMacabra, junto de uma baterista inglesa de grande índole nas baquetas.

 

Na extensa agenda de shows, uma parada na cidade em que atualmente resido, a gloriosa Mogi das Cruzes/SP, para o antepenúltimo rolê da turnê – que teve apresentação solo do Dro (que também tocou em boa parte dos shows da tour) e as bandaças locais Stereomotive e Maquiladora.

 

IMG_2912O rolê foi marcado para a UpMix, uma balada no centro da cidade, que, no dia 13/10, topou fazer um esquema de matinê para as bandas antes de sua festa habitual. Com algum ligeiro e comum atraso, o Dro (ex-Lisabi) esquentou as caixas de som com suas canções serenas, BPM baixo, vocais leves e guitarra limpa (em breve está para sair uma gravação com banda completa, aguardemos).

 

Logo em seguida o Stereomotive ocupou o “palco” improvisado, montado no chão de madeira da pista da balada. Trata-se de uma das clássicas bandas da cena rock de Mogi das Cruzes, que se ramifica por diversos subgêneros (um dia escrevo sobre todas elas…). Hard Core melódico, bases de baixo sobrepostas por solinhos agudos, refrões fortes. Um pique Hot Water Music gostoso de apreciar.

 

IMG_2907Tenho dificuldades para entender aqueles sub-estilos musicais que começam com “Post”, mas confesso que o show da CabraMacabra me auxiliou no intuito de entender este sufixo. Tem uns movimentos de progressão meio Post Rock, e umas tristezas bem levadas meio Pós Punk, e também umas transições meio Post Hard Core. A trama entre os vocais também é peculiar: do inglês pro português, de cânticos agudos para um berro em voz grossa. É um som repleto de transições, nem uma coisa nem outra, formando uma coisa inteira. Essa Cabra é bem Macabra mesmo.

 

Onze da noite. Quando a frente da balada já estava lotada de jovens portadores de Duelo, Cantina do Vale, Velas, Tecos e demais maledicências do lazer urbano e jovem, as nobres mulheres da Maquiladora começaram a tocar. Perícia musical intensa em fazer rock com muita harmonia entre as guitarras e baixo, os vocais da Thania, sempre afiados, afinados, e a bateria da Andreia que, rapaz, é cada virada… É sério, ouça essa banda aqui.

 

Quando os jovens da rua já olhavam com os piores olhares possíveis os tiozões e tiazonas do rock que entravam e saíam da casa, e soltavam frases de breve provocação a nós e aos seguranças da casa, o Dowsing se aprontou pra fechar a noite – as meninas da Maquiladora ainda tentaram desenrolar dos jovens entrarem na balada antes pra conferirem o show sem pagar a mais, mas não rolou. E também não rolou show em si: três músicas e “Vamos logo com isso acabou o show preciso abrir a balada a rua já está cheia já é quase meia noite a molecada vai comer vocês vivos!!!”.

 

Ficou aquele clima de “Que absurdo” entre nós, que só queríamos curtir um som, entre quatro rapazes que foram só para ver o show dos norte americanos, entre o pessoal da casa e a rapaziada que organizou o rolê… Mas, como pode dizer algum ditado, “É do absurdo que nasceu a luz”. Rápidas trocas de mensagens pelo Zap, rápidos braços para desmontar os equipamentos e em questão de uma dezena de minutos alguns carros estavam cheios de pessoas e a kombi de equipamentos: “Vamos pra outro bar, o Dowsing toca lá”. E fomos.

 

Uma da manhã os gringos recomeçaram o show, em outro endereço – o Campus 6, o bar que tem acolhido nossos “Bailes” neste 2017 – com os mesmos equipamentos e a mesma galera (exceto pelos quatro rapazes que não conseguimos encontrar na rua para lhes informar da mudança de local). Rolou um showzaço de Hard Core, “Esse é o real Emo”, diziam alguns mais exaltados. Guitarraças dobrando acordes, uma limpa uma mais suja, vocais alternantes, energia. Já que o palco foi armado só pra eles tocarem, o Dowsing abriu mão de um setlist enxuto e tocaram por mais de quarenta minutos.

 

Destaque a parte foi para os rapazes terem conhecido a peculiar (e tradicional) figura do “Pingaiada”. Aquela pessoa que bebeu demais e perdeu os filtros de ação, que dança na frente do palco, que senta no palco, que manda beijo pra rapaziada tocando, que dança um som pegado na rapidez do Hard Core como fosse um forró. Que simula o ritmo da música em um teclado imaginário em cima de uma das mesas do bar.

 

IMG_2899Terminado o show, como é habitual, a galera foi atrás de comprar os materiais das bandas, mas cadê as banquinhas? As caixas e malas com os merchs das bandas foi socado às pressas na Kombi, e foi ali, na calçada mesmo, apoiados nos bancos da Kombi, que a rapaziada fez o momento muamba do rolê.

 

Os gringos se divertiram, os Mogianos se divertiram – apesar de todas ou, sobretudo, com todas as correrias – e, por fim, a rapaziada na Kombi saiu, com corpos cansados, quebrada para descansar antes dos últimos shows e do retorno pra casa. Rolê absurdo!

 

 

 

Matéria: Gabriel Coiso

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