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Entrevista com a banda Jason

Punknet | 24/06/2012 | Comentários desativados em Entrevista com a banda Jason | Entrevistas

Com mais de 14 anos de história, o Jason bateu um papo com a PUNKnet, sobre a sua carreira, as novidades que os fãs podem espera e o seu novo EP, Obtuso. Confia abaixo a entrevista:

Foto por: Carlos f. Castro

PUNKnet – Quem é quem e o que cada um faz na banda?

FF: Toco baixo, escrevo as letras e respondo pela parte gráfica da banda. Excepcionalmente no disco novo fiz e gravei algumas guitarras.

Marcelo: Toco bateria, componho e, no disco, toquei também guitarras.

Vital: Eu crio as melodias, componho junto com a banda, canto e berro.

PUNKnet – Vocês tocaram em outras bandas. Qual a principal diferença entre elas e o Jason? Existem projetos paralelos de alguém da banda no momento?

FF: Na época em que surgiu o Jason, eu e o Vital tínhamos o Poindexter, que era uma banda de crossover. O hardcore era tipo uma célula dentro do leque de sons que fazíamos, mas pertencia ao mesmo universo. Se eu comparar com o Jason de hoje, posso dizer que a diferença é que somos muito melhores.

Marcelo: No Jason, é onde faço o que mais gosto. Paralelamente, toco também no Spektro, que é um projeto totalmente diferente, voltado pra trilhas de filmes.

PUNKnet – Com tantas alterações na formação, como manter a identidade da banda?

FF: Essa história de muitas formações, apesar de verdadeira, ao mesmo tempo é um mito. É uma boa oportunidade para esclarecer, inclusive. Para mim, a identidade da banda está muito mais no material gravado, na criação, na idealização.

Dentro dessa lógica, veja só: nos três primeiros discos só houve uma troca de baterista. Posteriormente entraram o Marcelo, também na bateria, e o Glerm no vocal – época das músicas do EP Verde, lançado só na internet. E no Regressão o Vital regressou (tá-tum-tsss), eu fiz as letras e o David era o único novato da banda. Isso em, sei lá, 15 anos de carreira.  Ou seja, a célula criativa da banda sempre esteve quase intacta. Incluindo o Obtuso, eu, curiosamente, sou o único a estar em todos os discos do Jason, mesmo tendo ficado fora da banda por vários anos.

Houve um milhão de formações em shows, em turnês? Sim. Mas são elas que respondem pela identidade da banda? Não. Foram pessoas apenas tocando as músicas do Jason temporariamente.

Marcelo: Identidade também pode ser algo relativo. Eu apoio você querer se desconstruir a cada trabalho, e se sair tudo completamente novo, quem é que vai dizer que isso também nao faz parte da identidade da banda? Mais legal é se reinventar, sob pena de te custar isso, do que se esconder atrás de um estilo, e ficar se repetindo por anos e anos, por motivos menos nobres do que fazer arte.

PUNKnet – De que forma foi ocorrendo a mudança sonora ao longo dos discos?

Marcelo: Em 14 anos, só posso achar natural que mude muita coisa. Suas referências vão mudando, você ouve coisas diferentes, ou vê as antigas sob um novo ponto de vista. Você quer abordar outros assuntos, ou as vezes, falar dos mesmos, mas de uma forma que não falou antes. Da mesma forma que foi ocorrendo a nossa mudança como pessoa, nossa criação foi acompanhando. E acho totalmente saudável isso, refletir no seu processo artístico. É você pegar para comparar, por exemplo, os Beatles no Please Please Me, e os Beatles no Abbey Road – obviamente guardadas as devidas proporções.

PUNKnet – Ainda sobre os trabalhos de vocês, muitos consideram o disco Odeia Eu um marco na carreira do grupo, por ser um trabalho com letras retas, diretas, coesas, ou seja, sem firula. Por que vocês acreditam que esse trabalho foi tão bem recebido e como ele nasceu?

FF: Para mim é marcante apenas por ser o primeiro. Ah, e por ter meus pais na capa – eu realmente adoro essa capa. Aliás, o disco vai ser relançado em vinil muito em breve, será ótimo ver aquela foto do casamento com mais de 30cm. Acho que o Odeia Eu foi bem recebido porque é mesmo um disco de hardcore muito bom. Despretensioso, mas ao mesmo tempo tem profundidade. E não é de hoje que as pessoas adoram dizer “ui, no primeiro disco é que era bom”, mas isso é normalíssimo, acontece até com o Metallica. Achar que algo do passado é bom, tem a ver com afetividade, não obrigatoriamente com qualidade.

Sobre as letras, acho que não tem firula em nenhum disco, nem no Eu Sou Quase Fã de Mim Mesmo que tem vários textos adicionais. E na real, eu melhorei muito neste quesito, naquela época eu não seria capaz de escrever uma frase tipo “sempre soube embaralhar, enrolada igual ioiô” com essa naturalidade de agora. No Odeia Eu eu ainda não tinha o aparato poético suficiente para fazer de outra forma, só sabia ser direto. E assim o disco nasceu, tudo bem simples, rápido e sem maiores preocupações.

PUNKnet – Sobre as letras, de onde vocês buscam inspiração para conseguir abordar tantos assuntos nos seus discos, visto que muitas bandas ficam suas raízes em desilusões amorosas ou críticas políticas?

FF: As desilusões amorosas e (também) políticas até estão lá, mas de forma sutil. Porque a intenção maior é fisgar as pessoas escrevendo histórias. Conto as minhas, as dos meus amigos, partes de outras que escuto nas ruas… e invento a maioria, claro. Não tem muita inspiração, só procuro ficar atento ao que está ao redor e trabalho muito para encaixar cada sílaba na métrica. As palavras-cruzadas que tanto fiz na adolescência ajudaram a formar meu vocabulário.

PUNKnet – Além dos discos e shows, vocês tiveram a oportunidade de ter a sua passagem pela Europa registrada em um livro pelo Panço, ex integrante da banda. Comentem um pouco sobre essa tour e o livro Jason – 2001, Uma Odisséia na Europa.

FF: Foi um momento marcante da minha vida, como se eu tivesse feito uma outra faculdade em trÊs meses. Conheci muitos países, me deparei com muita novidade de uma só vez: squats, punks que vivem de seguro desemprego, neo-nazistas, agressão verbal aos meus companheiros de viagem (aceitem minhas desculpas), ser um “cara de banda” 24 horas por dia, saudade da minha cidade natal, da namorada… O que vivi lá ajudou muito a moldar o que sou hoje.

Marcelo: Em 2003 fomos mais uma vez, desta vez com a formação 100% titular na época. Quem estava lá sabe que essa dava tranquilo outro livro.

FF: É, com a segunda turnê na Europa finalmente amadureci.

PUNKnet – Se me lembro bem, o Herón (Uzomi) esteve presente nessa tour. Contem um pouco como foi.

FF: Na de 2001, sim. O Heron descobriu um drink na Espanha, logo no início da turnê, chamado Kalimotxo, que basicamente é Coca-cola com um vinho qualquer. Se você encontrá-lo esta noite na Lapa, aqui no Rio, provavelmente ele estará com uma garrafa pet de dois litros contendo exatamente esta pitoresca bebida. Isso é mágico, isso é parte do que fez valer a pena viajar com 50% da formação da banda na época.

PUNKnet – Após tudo isso vocês ainda tiveram a música “Imagem É Tudo, Sua Cabeça Não Tem Nada”, regravada pela cantora Pitty. Como isso aconteceu e ela soube dar conta do recado?

FF: Não lembro bem como aconteceu o convite para participar da gravação, mas o Rafael Ramos, nosso baterista original, estava produzindo este primeiro DVD da Pitty e foi algo bem natural. E divertido. Temos uma relação com ela desde a época do Inkoma. Existe um vídeo de 2000 da Pitty, ainda uma verdadeira “moleca”, cantando “Imagem É Tudo…” com a gente em Salvador, daí foi só levar essa vibe para o estúdio. Achei legal ela ter escolhido essa música porque uma garota falando para outra “você é uma Barbie disfarçada” faz todo o sentido, funciona como uma autenticação, uma chancela. Confira o  vídeo aqui.

Marcelo: Acabou que apresentou a banda a um público diferente também. Sempre tem alguém que chega até a gente dizendo que conheceu a banda por causa da Pitty. É gratificante ver que muitas dessas pessoas se tornaram realmente fãs da gente.

PUNKnet – Ainda sobre a formação, como está sendo o desafio da versão power trio do Jason?

Marcelo: O power trio só vale para o EP. No início, a gente decidiu continuar a boa maré criativa e o entrosamento em que nós três estavámos, ao invés de sair por aí procurando guitarrista. Foi um processo democrático, aonde todo mundo participou intensamente, independente de instrumentos. Mas para o futuro, a gente tem planos de compor já com um guitarrista de verdade exercendo a função. Foi muito prazeiroso gravar as guitarras, mas ter que pensar nas baterias já é muito.

FF: O maior desafio é dividir os gastos só entre três pessoas.

PUNKnet – Pouco antes de anunciarem o EP, vocês estavam em busca de um novo guitarrista. Como surgiu essa ideia e se ela ainda está firme e forte?

Marcelo: A gente anunciou nas redes e testamos uma galera, mas firmamos com o Rodrigo Piccoli (foto), que logo de cara foi o que se demonstrou mais pilhado para ser da banda, além de, é claro, ter preenchido todos os requisitos técnicos. A turnê no Nordeste vai ser com ele, e naquela filosofia de dar um passo de cada vez, deixaremos para decidir na volta, tudo que tá implícito aí.

PUNKnet – De que maneira vocês avaliam o hiato pelo qual a banda passou? E a atual fase que cuminou no EP Obtuso?

FF: Nem consigo definir o que foi esse hiato porque a banda existiu um bom tempo nos palcos, fez turnês, só que sem lançar nada de novo. A única coisa que me ocorre agora é que sem o afastamento não haveria uma reunião tão frutífera. Parece óbvio, mas se você imaginar tamanho desgaste caso tocássemos juntos direto por 14 anos, passa a fazer sentido. Um exercício de ver o lado bom.

Marcelo: Todos na banda ja estiveram fora dela em algum momento, e ver as coisas em perspectiva, te reposiciona a respeito do que você quer e do que você não quer mais fazer. Nessa volta, a gente priorizou criar coisas novas, ao invés de continuar fazendo shows com repertório antigo. Está aí o Obtuso para provar que foi tudo do jeito que tinha que ser.

PUNKnet – Como foi o processo de composição, produção e gravação do Obtuso?

Marcelo: A gente passou um bom tempo indo para o estúdio os três, e só levando som e gravando. Simplesmente criando. Sem regra. Essa foi a melhor parte. No início a gente estava pensando em música independente de instrumento, porque bem ou mal sempre faltava um nos ensaios para completar a banda. Depois fomos pegando prática com as deficiências de uma formação incompleta, e reunindo e organizando todo material que tinha, para daí transformar em música. Esse processo foi tão rico em material que a gente tem já um monte de músicas novas engatilhadas para um outro disco. A conferir.

FF: É, se a gente ouvir o que tem de material gravado dos ensaios e resolver seguir finalizando, não vejo motivo para não lançarmos outro disco já no ano que vem. Aliás, só o fato de ser o ano 13 já é um estímulo a mais para isso acontecer. E essa foi a pergunta 13 também, sente a vibe.

PUNKnet – Qual a principal diferença do último trabalho de vocês, o disco Regressão, e o novo EP? 

Vital: Foi tudo diferente! O Regressão foi composto e gravado de forma atípica: a formação da época gravou o disco inteiro sem vozes criadas nem letras. Mesmo fora da banda na época, eu criei e gravei todas as vozes depois e o FF fez todas as letras.

Marcelo: Na época, como o nome já diz, quisemos fazer um disco mais cru, meio que remetendo mais às coisas do início da banda. Acabou que saiu um disco até rebuscado em alguns momentos. Foi uma regressão que saiu pela culatra (que bom!)

Vital: Já no Obtuso os três participaram de tudo desde o início, desde os improvisos de estúdio de onde saíram todas as músicas, até a última voz gravada no fim. Um trabalho coletivo de verdade.

Marcelo: É com certeza a atividade artística que eu mais me orgulho de ter feito na vida. A gente está muito feliz com o resultado.

FF: Pela primeira vez assinamos músicas que de fato criamos juntos. Uma baita diferença e um desperdício não ter acontecido antes.

PUNKnet – Vocês acreditam que esse novo trabalho será o início de uma nova fase do Jason?

Vital: Já estamos em uma nova fase, muito boa por sinal.  Estamos muito felizes com as músicas novas, como o EP, ansiosos para pôr os pés nos palcos outra vez para tocar esse material. Tem sido um bom momento, apesar do trabalho que dá fazer tudo da forma correta.

FF: Impossível não chamar de nova fase, simplesmente porque mudou muita coisa. Musicalmente não é de hoje que a banda vem mudando, só não percebeu quem parou no tempo, nos dois primeiros discos. Mas na forma de conduzir a banda está sendo meio drástico, agora pensamos em todos os detalhes, evitando fazer “do jeito que der”. É uma nova fase sim, a fase das coisas como devem ser.

PUNKnet – Como vocês resumem esses 14 anos de história?

Vital: Como toda banda que dura esse tempo todo, houve altos e baixos. Mas, olhando assim agora em retrospecto, gosto de imaginar que a banda teve mais altos que baixos. Sou muito orgulhoso dos discos que fiz com o Jason, todos eles. Já tive outras bandas, mas definitivamente o Jason é meu trabalho mais importante. Foram também 14 anos de muita estrada, muitos shows memoráveis. E felizmente temos ganhado fãs bem legais ao longo desse tempo.

FF: Foram muitas aventuras e uma grande confusão, tipo um filme da sessão da tarde.

Marcelo: Nos 10 anos que estou na banda, fiz o que quis em 100% do tempo, artisticamente falando, e acho o máximo ter pessoas por aí que curtem algo que fiz só para mim.

PUNKnet – Das bandas que estão surgindo na cena independente, quais vocês recomendam para a galera?

Vital: Cara, curto o Galinha Preta, HC sujão, bem humorado. Ontem conheci a banda do amigo Sad que era do Ack, Evil Idols, achei bem maneira também. Recomendo as duas.

Marcelo: Recomendo o Spektro, projeto de trilhas de filmes do amigo Kayo Iglesias, do qual eu também participo. Tem várias pegadas diferentes ali no meio. Inclusive hardcore e metal.

FF: Gosto muito do Chinese Cookie Poets, aqui do Rio. Mas para alguns recomendo cautela.

PUNKnet – O que o nordeste pode esperar do Jason?

Vital: Uma banda que vai tocar apaixonadamente o novo material e coisas de todas as épocas, inclusive do comecinho. Esperamos que a galera entre em sintonia e curta todas as nuances do nosso som, que tem HC, roque estranho, tem de tudo rs… ensaiamos uns HCs especialmente para o Nordeste, mas a gente está levando o Jason 2012 para estrada, e acho que todos vão curtir.

FF: Estou muito feliz pelas pessoas que no nosso show vão ouvir a voz do Vital, cara. Isso era uma angústia minha, porque tem as peculiaridades do timbre dele, ele cantou nos discos, é outra parada. E sabe-lá a última vez em que a banda fez turnê lançando disco novo com a formação que acaba de gravar. Estamos vivendo intensamente esse momento. A frase é piegas, mas é real.

Marcelo: Nesses anos todos de banda, não teve um dia sequer que a gente não recebesse pelo menos uma manifestação de carinho dos fãs espalhados pelo Nordeste. A gente tá planejando isso há muito tempo. Ia ser ano passado, e não deu. Neste ano, fizemos uma verdadeira força-tarefa para viabilizar essa turnê, e mesmo não podendo atingir 100% das cidades que a gente queria atingir, estamos satisfeitos em poder retribuir essas boas vibrações dessas pessoas, dando o melhor da melhor fase criativa de nossas vidas. Vai ser bom para cacete.

PUNKnet – Aproveite o espaço e deixe seu recado.

FF: Dav e Laís, um obrigado pela receptividade. Ilsom (Sub Folk), Wilson (Brechó) e Klotz (Suvaco), um salve por estarem conosco nessa empreitada obtusa. David (Molotov), um valeu pelas belas e novas camisetas que virão. Bil e Superfuzz um brinde pela moral sinistra. E um abraço para todos os amantes do ritmo doidão.

Marcelo: Você acha a gente em praticamente todas as redes disponíveis sob a alcunha de “jasonoficial”. Facebook, Twitter, Instagram, Youtube etc. Antes da turnê no Nordeste, tocaremos dia 6 na Audio Rebel (RJ), dia 7 em Resende (RJ) e dia 8 em São José dos Campos (SP). uou!

Download grátis do EP “Obtuso” a partir de 26/6: http://tramavirtual.uol.com.br/jason

Entrevista por: Dav Campos – @davinreallife

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