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Entrevista com Odradek

Renata Py | 14/08/2016 | Comentários desativados em Entrevista com Odradek | Entrevistas
Foto: Gabriel Coiso

Foto: Gabriel Coiso

Sentei-me em uma roda no chão do palco junto ao Caio, o Fabiano e o Tom, os jovens do Odradek. Liguei o gravador com o intuito de entrevistá-los minutos antes deles realizarem um baita show no Z Carniceria, em São Paulo. O que ocorreu, no entanto, foi um extenso papo, por meio do qual tomamos conhecimento de demais sujeitos a compor o Odradek (mas que não sobem ao palco), uma diversidade de referenciais musicais a inspirar a banda, a cena musical em Piracicaba, processos criativos e o Split “Sun Seeker”, recém lançado junto à banda Sphaeras, de Singapura. Por sorte havia um gravador ligado e tudo foi registrado. Confira a conversa abaixo:

 

PUNKnet – A primeira vez que vi vocês tocando foi em 2013, em uma festa numa chácara, e o público eram amigos, amigas e familiares. Nesses três anos vocês fizeram coisas para caramba: EP’s, shows, amizades. Atualmente os considero uma banda em crescimento – em termos de banda, que tem características próprias fortes, e em termos de público. Gostaria de saber como vocês estão vivenciando esse momento da banda e o conciliando com as demais atividades do cotidiano?

É um desafio. Parece que a coisa séria vai entrando, e tomando cada vez mais espaço. A gente está ensaiando praticamente de madrugada, por que não tem opção. Atualmente a gente trabalha a banda em épocas: agora é época de fazer shows, o primeiro semestre foi época de compor, estávamos fazendo o CD, tanto que fizemos só três shows esse ano. Como a gente está trabalhando por temporadas, nessa fase é tranquilo conciliar, agora para dar outro passo ficará difícil. E, com certeza, é bem diferente de tocar para a família.

Quando a questão é composição ou gravação, a gente consegue fazer o nosso horário anárquico, de madrugada, quando é show a gente tem que ajustar algumas coisas, e cada vez fica mais difícil de conciliar com escala do trabalho. Hoje, por exemplo, eu (Tom) saí direto do trabalho, peguei o Caio e viemos para cá, depois do show já voltaremos para Piracicaba por que o Caio trabalha amanhã às 7h.

Mas isso estará junto com a banda, pois uma banda underground nunca vai sair dessa vida de ter que conciliar as duas coisas. As pessoas que a gente gosta, trabalham e fazem música, tipo o Paulo Vanzolini, o cara passou a vida inteira como cientista, e nas horas vagas fazia música. Ou o Rodrigo, do Dead Fish, que é advogado; o pessoal do Plastic Fire e do Menores Atos que veio do Rio de Janeiro tocar em Campinas, eles tinham acabado de trabalhar e iam voltar por que tinham trabalho na segunda feira. A arte e a banda exigem um tempo, mas nem sempre é uma dedicação integral, e a gente não se sente mal com o fato de estarmos trabalhando e tocando, por que sabemos que muita gente faz isso.

 

PUNKnet – Vocês são da bela Piracicaba, cidade média no interior paulista que, pelo que me recordo, ainda

Foto: Gabriel Coiso

Foto: Gabriel Coiso

tem por sinônimo de “rock” para muita gente o rolê cover. Como vocês acham que esse trânsito de vocês por outros cantos do estado, do país e do mundo pode fortalecer uma cena de bandas autorais na cidade e inseri-la no circuito nacional de bandas?

Não dá para fazer nada sozinho, e não é só o Odradek que está fazendo isso na cidade, é o Odradek com muita gente. Como outras bandas que conversam com o público de fora da cidade, como o Mullet Monster Mafia, o Travelling Wave, bandas de hard core como o One Minute Less e a Hardly a Heartbeat (que não está mais na ativa, mas a galera continua muito ativa), tem também o Mazzaropi Contra o Crime, que é uma banda das antigas.

Tem o Franco Torrezan, do Casarão Music Studio, que está sendo uma ponte para bandas do mundo inteiro que vão tocar lá. Todo mês tocam duas bandas gringas no Casarão, e vai junto alguma banda de São Paulo, ou alguma da região de Piracicaba mesmo, já foi o Medulla, o Maguerbes. São bandas só de música autoral, isso é um pré-requisito para tocar lá, e o bacana é que tem um pessoal indo para assistir as bandas, conhecer mesmo. Tem também o Locomotiva Fest, um festival que eu (Fabiano) faço com meu irmão, o Caio e o Tom trampam nele também.

Com essas iniciativas Piracicaba virou parte desse circuito de bandas e coisas que estão acontecendo. Mas ainda precisa crescer muito, esse que a gente falou é um nicho específico, o Casarão Music Studio é uma fonte que consegue chamar essas bandas, mas fora isso, é até meio difícil penetrar no público de Piracicaba. O que rola é que agora em Piracicaba tem algumas pessoas “coringas” que estão se esforçando muito e fazendo acontecer: um cara que cede um espaço bem cuidado, que dá uma grana legalzinha para banda que está viajando, que dá um suporte de som legal, um cara que filma bem e valoriza o trabalho da banda. E aí acaba formando esse circuito com algumas cidades onde também há espaços abertos para bandas autorais, como Sorocaba, São Carlos, Campinas, cada cidade dessas tem um Franco.

 

PUNKnet –Um dos fortes do Odradek é firmar parcerias com pessoas e agentes tão criativos e intensos quanto vocês. Na posição de “banda independente” como vocês entendem a importância dessas relações para o crescimento da banda como um projeto artístico?

Como a gente falou, não tem como fazer nada sozinho. Além do Casarão e outras pessoas, temos uma parceria com o Crase Studio também, a gente é uma banda em crescimento, então vamos chamar artistas em crescimento para fazer coisas com a gente. São pessoas que a gente acredita e a gente gosta de verdade, achamos que eles são criativos e talvez essa parceria seja frutífera. O Crase Studio faz nossas artes gráficas, é composto pelo Caio Mendes e a Marianne Catafesta, eu (Fabiano) estudei com o Caio, a gente fazia trabalhos juntos, e aí a gente meio que desenvolveu criatividades juntos. Como eles escutam os arquivos de guitar pró do Odradek desde sempre, eles viram a banda desde o começo, e até por isso o Caio e a Marianne tem certa facilidade em fazer uma arte visual que tenha um diálogo com o musical que nós fazemos.

 

PUNKnet –O álbum novo, “Sun Seeker”, também entra no leque de parcerias de vocês. Fico curioso por saber, primeiro, quem é Sphaeras, e, segundo, como começou e se deu o contato com eles.

O Sphaeras é uma banda de quatro pessoas lá de Singapura, a gente troca ideia mesmo com o Axl, que é o baixista e é a ponte entre as duas bandas. O som deles é um pós-rock, mas o baixista curte uns sons mais frenéticos.

A gente nunca lembra direito dessa história de como começou… Começou com eles gostando da gente. O Axl mandou um comentário no nosso Facebook dizendo que havia gostado da banda, daí vimos que ele tinha uma banda também. Eles tinham uma demo, não tinham lançado o CD ainda, nós ouvimos e achamos muito louco – e, na real, só dos caras serem de Singapura e mandarem um comentário curtindo nosso som já foi meio estranho.

Mas acho que isso tem a ver com aquela outra pergunta sobre parcerias com gente criativa e em crescimento, os caras também estavam lançando o primeiro CD deles, e a gente também achou que era uma coisa que estava engatinhando e indo muito bem, mais ou menos na mesma situação que a gente. Engatinhando não, puta CD! E a gente se identificou também por que Singapura é que nem o Brasil em termos de não ter espaço para música nova, eles vivem reclamando disso também. Então, porque não lançar um CD com uma banda do outro lado do mundo? Hoje em dia é possível, dá para fazer fácil.

 

PUNKnet – As duas primeiras músicas do split foram feitas de maneira colaborativa entre as duas bandas, como foi esse processo?

Ah, isso foi uma odisseia. Era uma parte de cada vez, eles faziam um trecho e mandavam para a gente, e vice versa. Começou com o Axl mandando uma linha de baixo e uma de bateria feita num programa de computador, que é a introdução da música “Sun Seeker”, que abre o split. O Caio copiou na bateria o que ele fez no computador e o Fabiano criou as linhas de guitarra. Aí eles acharam “nossa, que legal essa guitarra”, ficaram empolgados, e a gente achou que fosse fluir super bem, ficamos em êxtase com o que tinha saído daquilo! Daí começamos a escrever a música e não saía de jeito nenhum, por uns três meses ficou uma merda, a gente simplesmente não conseguia fazer nada em cima! O Fabiano escrevia alguma coisa, mandava para eles, e eles não gostavam, falavam “hm, mais ou menos”. E foi ótimo isso deles falarem que não gostavam das coisas, por que aí a gente podia criticar de volta e ir formando o negócio sem muito ego, podia criticar que ninguém ia sair com o ego ferido.

O mais difícil do processo era entender o pega deles, por que você como brasileiro sabe como um brasileiro está escrevendo numa plataforma como o Facebook ou o WhatsApp, já eles falam de um jeito diferente, o inglês deles era meio estranho para a gente. A comunicação é bem estranha, o jeito deles escreverem parecia estranho, era tudo por mensagem pelo Facebook, a gente nunca fez nenhum Skype nem nada com eles, para a gente eles eram um holograma, não existiam (risos).

Exemplo dessa coisa de ser uma comunicação estranha eram partes das músicas que a gente fazia e imaginava um negócio calmo e mandava para eles, aí eles mandavam de volta um baixo estralando, nada a ver, como se eles tivessem compreendido um negócio completamente diferente. Por exemplo, o Fabiano tinha feito uma guitarra extremamente limpa, aí eles falavam “nossa, gostamos muito”, na hora em que a gente ia ouvir o que eles tinham entendido, eles tinham feito um baixo com distorção, totalmente diferente do que a gente tinha imaginado. Mas algumas coisas disso foram boas, a gente se surpreendeu e gostou. O resultado final para a gente ficou ótimo, mas foi uma jornada, uma coisa de altos e baixos.

 

PUNKnet – Quanto tempo levou para fazer o split?

Desde o início da composição até gravar foram uns seis meses. A gravação foi mais rápido, eles falavam as coisas que eles queriam, tipo um timbre de baixo, e a gente ia seguindo. Daí o Caio gravou as duas baterias, o Fabiano gravou guitarras, eles gravaram as linhas de baixo lá, mandaram para a gente e o Franco mixou tudo em Piracicaba, no Casarão.

 

Foto: Gabriel Coiso

Foto: Gabriel Coiso

 

PUNKnet – Um destaque que vejo nas músicas de vocês, já desde os EPs anteriores, diz respeito às letras, imaginativas e muito bem escritas, isso se manteve nas músicas novas. Gostaria que vocês comentassem sobre a letra da música “Tétrico”, que no final tem uma voz de mulher falando palavras macabras.

Um dia a gente estava na casa do Caio e não tinha ideia para letra, daí pensamos em tomar um capuccino, e a avó do Caio, que mora no mesmo prédio que ele, tinha. Aí a gente pediu que ela contasse alguma história tenebrosa da vida dela para a gente, e ela contou de quando tinha vinte anos e foi lecionar em uma cidade muito distante. Tinha que pegar horas de carro e depois horas a cavalo, às vezes o cavalo ficava com medo de pássaros tenebrosos cantando, desistia da jornada e ela concluía o caminho a pé. Ela contou que dormia com insetos, era um lugar que não tinha mais professores, não tinha energia elétrica. Ela tinha que ir sozinha, não tinha ninguém para acompanhá-la, então ela ficava na mão de um monte de gente que não conhecia. Tinha sacos de milho na sala de aula, juntava um monte de ratos. Mas ela falou que apesar de tudo isso achou demais se desprender dos pais e ir para a vida, por que ela era muito mocinha, praticamente adolescente na época. Daí a gente pediu para ela sintetizar a história dela em palavras, ela disse que ia pensar e depois falava para nós. Mais tarde, no mesmo dia, ela mandou um áudio de whatsapp para o Caio, falando que havia pensado nas palavras: “apavorante, amedrontador, escuridão”, que é o áudio que foi para a música. O próprio título da música foi ela quem falou, no meio da conversa ela soltou um: “nossa, isso foi tétrico”. Foi pensando nessa história que compusemos a letra.

 

PUNKnet – Por fim, agradeço a disposição de vocês em conversarem com o PunkNet e gostaria de fazer uma última pergunta. Não quero falar sobre “influências musicais”, acho o som de vocês diabólico demais para lidarmos nesses termos. Gostaria de saber algumas “referencias”, tanto de estilos, músicos, artistas e bandas, enfim, que vocês citassem qualquer coisa que funciona como referência musical para o Odradek.

Odradek: a gente tem um esqueleto baseado no math-rock, que a gente se identificava quando nos encontramos para fazer música, que era The Fall of Troy, Daughters, The Number Twelve Looks Like You, coisas tortíssimas. Daí vem outros referenciais e fazem todo o recheio e o tempero, e são coisas muito “nada a ver”, tipo Warpaint, Tame Impala, que não tem praticamente nada a ver com o nosso som. É esse o tempero.

Fabiano: Michael Jackson para mim é uma puta referência, talvez uma das maiores, com certeza, musicalmente e tudo. Para fazer esse álbum (Sun Seeker), eu ouvi muito Tyler, The Creator, para fazer o verso de “Orla”, tem muito de Tyler, The Creator que, se for ver, não tem nada a ver com o nosso som.

Tom: eu gosto bastante de hard core, eu comecei a curtir música por causa de hard core. Curtir música mesmo, de viver o estilo de vida, de querer ser igual os caras. Sei lá, ultimamente a gente escuta de tudo, um monte de coisas estranhas e coisas pop, acho que a gente está escutando coisas diferentes do que a gente toca.

Caio: eu nunca gostei muito de rock progressivo, o que eu gostei de rock progressivo já foi Rick Wakeman, e alguma coisa desse movimento. Para fazer as letras eu curto muito o Paulo Vanzolini, eu curto os temas. Curto muito samba, jazz, música clássica, o Graveola e o Lixo Polifônico, que é a banda brasileira que eu mais gosto. Daí a gente tenta inserir essas coisas dentro desse nosso esqueleto. É sempre uma brincadeira que a gente faz, a gente pega as coisas que a gente gosta e tenta botar nessa fórmula bizarra das nossas músicas.

 

Entrevista: Gabriel Coiso@gabrielcoiso

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