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Flicts, Surra e Topsyturvy: o presente do futuro “apocalíptico”

Punknet | 23/02/2017 | Comentários desativados em Flicts, Surra e Topsyturvy: o presente do futuro “apocalíptico” | Colunas

Em 2014 o tradicional “Punktoberfest”, festival anual que rola em São Paulo, coincidiu de acontecer no sábado, véspera do segundo turno para as eleições presidenciais. Havia um clima meio constrangido entre muita gente de que “É, isso aí, que coisa, teremos que votar na Dilma, no PT, no Temer, pois do outro lado está o Aécio, o PSDB…”.

 

O último show daquela noite no Hangar 110 era do Flicts, e dado instante do show, o “Professor”, baterista da banda, comentou algo nesse sentido, de que eram inegáveis os “avanços sociais” do brasil na dita “Era Lula e Dilma”, e que, por conta disso, ele entendia os companheiros que votariam na chapa. No entanto, nos alertou, de maneira um tanto quanto apocalíptica, sobre o futuro próximo: “Independente de quem ganhar a eleição amanhã, as coisas vão piorar muito nos próximos anos no brasil para quem é libertário”.

 
Bom, não tardou, esse futuro chegou. Mal acabada a apuração dos votos os derrotados chamavam “o povo” às ruas “pelo impeachment”. Um massacre midiático contra a presidenta eleita e seu antecessor, Lula. Grupos de empresários que seriam investigados pela “Lava jato” financiavam campanhas pelo impeachment, “Não vamos pagar o pato”, eles diziam. Cartinha que vaza daqui, áudio que vaza dali. “Um grande acordo, com o Supremo, com tudo”.

 
Nazistas assumidos e judeus inocentes desfilando de mãos dadas na Avenida Paulista – foi na noite de 11 de Maio de 2016, passando pelo prédio da Fiesp enquanto uma multidão se reunia para aplaudir o golpe no senado, que vi um rapaz que vestia uma jaqueta com discretas insígnias nazistas ao lado de um jovem rabino. Coexistiam, pacíficos, pelo mesmo intuito.

 
IMG_2296Esse presente apocalíptico, cuja bola foi lançada lá atrás, não só pelo “Professor” do Flicts, tem nos inquietado dia a dia, e foi ainda em Dezembro de 2016 que uma bela análise desses últimos anos chegou aos nossos ouvidos: o álbum “Tamo na merda”, do Surra.

 
A sonoridade Hard Core Trash Punk é de descabelar o cérebro, e as letras cantam um brasil contemporâneo que nos bate à porta dia a dia: a religião que cega, em um momento de crescimento moral dos candidatos-pastores; a fila do SUS, que se já era a fila para a morte, como será nos próximos vinte anos, com investimentos federais “reduzidos”?; violência policial, crença numa democracia e numa justiça seletivas.

 
Algumas faixas, como, “Daqui pra pior”, “Tamo na merda”, “7×1” e “Não tem boi”, são poesias sobre um capitalismo fadado ao naufrágio, sobretudo no que diz respeito ao nosso contexto brasileirinho: “Ainda somos colônia, se alguém aqui não percebeu”. São 28 minutos de chute no fígado da orelha que, numa audição atenta, permitem uma leitura ácida e crítica do brasil recente.

 
Recomendo que você separe trinta minutinhos do seu dia e ouça o álbum por meio desse link de Youtube, onde tem as letras sincronizadas com a música: https://www.youtube.com/watch?v=KYGLebNOD58&t=311

 
IMG_2297Com sonoridade menos porradeira, e frequências menos aceleradas de Batidas Por Minuto, saiu em Janeiro desse ano o EP “Bloco da esquerda festiva”, da banda Topsyturvy. Assim como o álbum do Surra, já escancara no título do trabalho a que vem: é um registro desse período sombrio.

 
São cinco faixas de rock abrasileirado, em que cantam a caricatura da “Coxinhada” e da “Reaçada”, que vestiu verde e amarelo em nome de ecoar o discurso do patrão, acreditando que eram suas próprias vozes. Fazem menção também a figuras em comum às citadas pelo Surra, como o “Mito” – essa figura que talvez multiplique o tom apocalíptico da fala do Professor em outro futuro – as cegueiras religiosas que se infiltram na política, selfie com policial militar por quem desconhece (ou ignora) os métodos dessa corporação.

 
A faixa “Popsy” é um retrato literal de momentos do golpe: um instrumental fino com “colagens” de áudios que marcaram a derrubada da presidenta, como o discurso de Bolsonaro em homenagem a torturador, Temer se dizendo agir conforme à constituição e, no “refrão”, Lindbergh Farias acusando, “Canalhas, canalhas, canalhas”.

 
Dá para ouvir o EP inteiro e acompanhar as letras nesse link aqui: https://topsyturvy.bandcamp.com/album/bloco-da-esquerda-festiva

 
Quer entender o brasil pós-2014, pós-pato, pós-golpe? Ouça esses álbuns.

 

 

Por: Gabriel Coiso

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