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Ludovic e o filme da sua vida inteira (ou parte dela) – Por: Gabriel Coiso

Punknet | 24/03/2017 | Comentários desativados em Ludovic e o filme da sua vida inteira (ou parte dela) – Por: Gabriel Coiso | Matérias

Não me recordo de quando foi a primeira vez que ouvi aquela história, muito utilizada em filmes e livros, de que quando se está prestes a morrer, toda a sua vida, como um filme, passa diante de seus olhos. Não conheço ninguém que “Foi e voltou” para confirmar ou negar tal ideia, embora ela me soe um tanto quanto su ou irreal.

 
Notei que estava vivo, e até de mais, quando as guitarras anunciaram o início do show do Ludovic, na choperia do Sesc Pompeia, com a música “Boas sementes, bons frutos”. Um arrepio me cortou a espinha dorsal, subiu até a nuca e se ramificou para os meus braços. Sensação que, bizarramente, ocorreu por dezessete vezes: a cada início de música era um estralo nos nervos.

 
As recordações dos momentos que vivemos (algum autor de alguma área do conhecimento científico escreveu isso), são por nós imaginadas como cenas das tantas imagens filmadas a que somos submetidos. O nosso modo de imaginar o que vivemos, basicamente, “Copia” cenas daquilo que vimos. E foi dessa maneira que, sem estar frente a frente com a morte, diversas cenas de momentos distintos da minha vida passaram diante dos meus olhos, dos primeiros aos últimos acordes.

 
Durante dois ou três intervalos entre músicas, Jair Naves realizou algumas falas sobre a banda e o tenso momento político atual. Em uma delas, valorizou o fato de que cada um e uma que estavam ali presentes eram fundamentais para a existência de bandas como o Ludovic: “Estarmos tocando aqui hoje não é uma conquista dessas quatro pessoas, mas uma vitória coletiva de todos vocês”.

 
Valorizou também que, embora o show ocorresse em um ambiente distinto à maior parte dos já realizados pela banda – em “Botecos, pastelarias” – a troca de energia entre público e banda se manteve, dissolvendo as diferenciações entre uns e outros.

 
Cada uma daquelas pessoas, e me incluo nessa lista, traz em si um pouco de Ludovic. Não tenho duvidas, nas cabeças de cada um e uma que estavam lá, filmes se passavam. Na cabeça do rapaz fazendo um “Air guitar” durante “Janeiro continua sendo o pior dos meses”; na mente da garota que tinha semblante sério enquanto cantava junto da banda “Unha e carne”; do casal que esteve de mãos dadas a maior parte do show; do cara que veio de Sorocaba/SP só para ver o show e voltar, pois nunca havia dado certo de participar de um show do Ludovic.

 

A cada arrepio, a cada lembrança que carrego no peito sobre a presença da banda ao longo de minha vida, situações e anos (2004, 2005, 2009, 2010, 2013 e agora 2017) saltavam a mente sob a forma de cenas cinematográficas. Ao sair do Sesc Pompeia, um dos meus lugares favoritos em São Paulo, foi reconfortante saber que, se for verdade a história do “Filme diante dos olhos”, fomos excelentes atores/atrizes e cinegrafistas neste 23 de Março de 2017. Pudera, estavam no palco excelentes atores e cinegrafistas das vidas de todas aquelas pessoas.

 

 

Por: Gabriel Coiso

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