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Max e Iggor • Return to Roots – Belo Horizonte

Punknet | 19/12/2016 | Comentários desativados em Max e Iggor • Return to Roots – Belo Horizonte | Matérias

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Os irmãos Cavalera fizeram um duplo retorno: ao disco Roots – o tal maior disco do Sepultura – e aos míticos shows em Belo Horizonte, cidade onde cresceram e formaram a banda. O show aconteceu coincidentemente um dia antes de completar 20 anos do último show de Max ao lado do quarteto que fundou com os amigos (15/12/16), na casa de show Music Hall, que fica ao lado de um batalhão militar, pertinho do bairro de Santa Tereza, onde cresceram.

Foto: João Perdigão

Foto: João Perdigão

E um show do Sepultura em BH é sempre emblemático e celebrado, assim como um raro show do Soulfly também é, e ainda, talvez, do Cavalera Conspiracy. Então os Cavalera tocando Roots seria o melhor dos dois mundos para encanto dos belorizontinos.

Assim, para ficar num clima bem familiar, andei 7 quarteirões até o show, e lá encontrei uma série de rostos conhecidos da cena metal que circula pela cidade desde os anos 80, todos amigos, sorridentes e com pelo menos 30 anos a mais do que tinham quando escutaram Kiss, Motorhead, Venom e Celtic Frostic pela primeira vez.

Já no credenciamento pude ver uma lista escrita à mão com belas letras “Familares de Max e Igor” – ou seja – ia ser família mesmo.

Aliás, logo de início pude esquecer dos metaleiros: haviam sim uns 30, 40 na grade, sedentos pelos ídolos, o restante eram arquitetos, designers, cientistas da computação (é assim que define?), micro-empresários, profissionais liberais e outros profissionais não liberais que estavam ali pelo show. A maioria dos presentes era gente mais velha, a molecada não compareceu, o que nos faz pensar se o Roots entra na vida da juventude pelo próximos 20 anos, ou ainda se ele entrou na vida da juventude de hoje? Numa pequena e imprecisa pesquisa que fiz entre uma molecada que conheço, o nome do Sepultura não sucita nem curiosidade. Estão todos no Slipknot, Linkin Park, Nirvana e umas outras bandas que eu nem ouvi falar de vocalistas bonitinhos e atormentados. E a mudança do perfil do público fica bem explicado quando Iggor Cavalera ostenta um corte de cabelo cosmopolita e Max aparenta um rastafari branco bonachão. O público ficou comportado como seus heróis.

Foto: João Perdigão

Foto: João Perdigão

O show, bem, eu não gostei não. Achei bem fraco. Bonito de ver, afetuoso, um encontro dos músicos satisfeitos em tocar com o público feliz em assistir. Mas sem virulência, sem agressividade. A banda de abertura – Incite – foi muito mais esporrenta e tensa.

Vejamos alguns high lights: Roots Blood Roots abriu o show, e o que seria o momento mais animal e esperado do show não foi catártico, foi apenas um bom começo, até meio confuso. O berimbau de Atittude soou fraco e com pouca da expressão característica do instrumento. Até me passou pela cabeça que o berimbau estava ali num papel bem burocrático, e me fez perguntar se era pau na captação ou se era Max que tocou fraco mesmo.

Ratamahatta, a canção das selvas, primitiva (adjetivo que volta e meia tá no universo artístico de Max) soou folclórica, com a letra sendo cantanda didaticamente, ao invés de urrada em desespero.

E assim eu continuei assitindo o show, admirando como o baixista tocava muito bem e tirava um grande som do instrumento, como Iggor toca de forma criativa, e apesar de em certos momentos me parecer apática sua performance, sabia que ele é só um baterista muito compenetrado. Fera mesmo. O guitarrista toca muito bem, mas não me convenceu no papel e não quero falar sobre ele.

E Max até dava um ou outro pulinho, incitando o público a fazer o mesmo ou a fazer uma roda e não tocou bem sua guitarra, fazendo com que nos momentos em que tocava sozinho o som saísse sem energia, de forma que quando a segunda guitarra entrava ela não só se sobrepunha como encobria quase toda linha da outra guitarra – não em volume, mas em energia. Ele mantém a regularidade da voz ao longo da apresentação, mas não botou os bofes pra fora. Pra mim, Max só utilizou vocal gutural em poucos momentos, na maior parte do tempo, cantava um rap – e o barulho da platéia cantando com ele sobrepunha a voz. Me parece que cantou com a reserva técnica, o quê dá certo, mas tira a selvageria apontada anteriormente.

Não esperava o Max de 20 anos atrás, mas tendo em vista Iggor e os outros ex-companheiros de Sepultura, me parece que ele perdeu algo de sua forma física – sensivelmente.

Continuando o show, Itsari foi toda tocada com samplers para Iggor acompanhar. Lookaway, que no disco tinha participação de Mike Patton e do vocal do Korn virou um remix zedoidin. Já a instrumental Jasco ficou de fora – provavelmente porque era coisa do Andreas. O que me pareceu bem picareta do ponto de vista do anúncio da reprodução do álbum na íntegra. Max, em entrevista ao G1, disse que após tentativas fracassadas de se reunir com Andreas e Paulo para tocarem em uma turnê comemorativa convidou os caboclos que tocam com ele, e por fim afirmou que a decisão foi acertada pois eles tocam melhor que os ex-companheiros. Ora, porque não colocar então os violões na canção e fazer ela ao vivo, ao invés dessa versão simbólica?

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Foto: João Perdigão

Ao fim do show a dupla voltou e tentou fazer uma versão de War Pigs, mas foi meio improvisada, e enquanto a bateria seguiu corretamente a guitarra e voz se perderam – momento descontração perdoável – e seguiu-se uma versão para os Celtc Frost e mais uns lados b, legal de ver, serviu mais como curiosidade do que satisfação. Fim de show.

Enquanto eu ficava azedando e pensando sobre o que estava acontecendo, via o público perder a cabeça, cantar sem parar, pular, abrir lindas rodas de pancadaria e morrer de prazer assistindo os irmãos. Eu, praticamente um idoso, andei confortavelmente por todo Music Hall escutando as músicas em diferentes lugares para ter a melhor impressão possível das canções. O resultado disso foram tropeços e semi-torções nas armadilhas do piso irregular da casa, a constatação que o som estava bem bom no geral, e de que a celebração estava bonita mas o Roots merecia mais.

É legal ver os irmãos curtindo a história que eles criaram, é bem maneiro o clima de festa deles em BH e dá pra curtir as músicas, mas não foi um show de alta performance. Se o público não estivesse entregue à admiração ao Max e reagisse a qualquer palavra dele, seria um show bem chocho que a banda teria que suar para conseguir convencer. Mais uma vez me lembro que o Incite pegou fogo no palco.

screen-shot-2016-12-19-at-11-29-20-amE bem, sempre que leio uma entrevista com os Cavalera temos o assunto Sepultura, e nunca entendo bem qual é a deles: ora algumas respostas falam sobre tocar juntos em comemoração a algo, hora dizem que não pensam nisso e só olham pra frente. Creio que Max é quem mais li em entrevistas criticando o rumo da ex-banda. E quando vejo esse show de comemoração acho que o Sepultura faria bem, mas bem melhor mesmo.

O que eles não teriam é o mito criado em torno de Max e seu carisma, o que acho impressionante, pois não o vejo assim, apesar das evidências mostrarem o contrário, e apesar de ter cada vez mais reservas com o músico quando leio suas entrevistas vejo que o Soulfly cria hits e roda o mundo, e que o Cavalera Conspiracy é realmente um dream team com composições extremamente agressivas.

Assim não sei bem porque evocar o nome dos ex-companheiros. Trazer sempre esta sombra em suas carreiras. Acho que o Sepultura é bastante elegante nesse ponto, tem um trabalho com caráter cada vez mais forte sem os Cavalera, e volta e meia tem que lidar com declarações como “nós tentamos contato mas o Andreas é difícil”. Andreas mesmo eu quase nunca ouço falar sobre os caras (mas fez uma fala que me pareceu bem correta sobre ambos em recente entrevista no “Panelaço” do João Gordo)

Minha impressão geral é que a tour é muito benvinda e que os caras têm que aproveitar e celebrar o que fizeram: a vida é curta e eles se separaram de forma quase trágica quando muito novos, época propícia para decisões drásticas tomadas de cabeça quente. Esperava mais da performance e do tratamento às músicas no show. Cria-se um clima de que basta os dois irmãos no palco para se criar uma maravilha, mas dois Cavaleras não fazem verão, muito menos o Roots.

Texto e quadrinho: Batista

Foto: João Perdigão

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