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Rattus no Rio de Janeiro

Punknet | 28/09/2013 | Comentários desativados em Rattus no Rio de Janeiro | Matérias
Repúdio por: Vitor Malheiros - @vcmalheiros

Repúdio por: Vitor Malheiros – @vcmalheiros

Eram 5h07 da manhã de sábado (28) quando eu percebi: acabou. Acabou o que tinha sido uma noite muito foda. Foram oito horas que às vezes pareciam 20, às vezes passavam na velocidade de duas baquetadas. Não tinha como ser diferente. Punkrock hardcore do bom. Em finlandês. Na Planet Music. Com mais quatro bandas do Rio de Janeiro e São Paulo. Com uma plateia de bêbados e loucos. Foi nesse contexto que se encerrou o show do Rattus.

Para quem mora em Copacabana, ir à Planet Music é tipo viagem de final de semana com seus pais quando você tem dez anos de idade. Demora para chegar, para desespero da nossa editora Laís, que ia a Cascadura pela primeira vez; o lugar é meio diferente, e você passa o caminho todo muito ansioso querendo chegar logo para se divertir (no caso dessa galera, encher a lata e ouvir música de doido). Beleza, busão no Rio na sexta final do dia. Quase duas horas só de ida, para mesmo assim ainda encontrar pouca gente na porta. Bilheteria armada, casa ainda fechada, sanduíche vegan do brother na porta e, aí sim, um fluxo de calças pretas encobertas de patches começou a crescer.

Bem como o consumo de álcool. A cerveja mal parava na geladeira do bar, e cada grupo que chegava tinha sua garrafa de vodka, ou cachaça, ou gasolina. Juro que eu vi um cara beber graxa ontem.

Test por: Vitor Malheiros - @vcmalheiros

Test por: Vitor Malheiros – @vcmalheiros

Muita espera, o trajeto SP-RJ das bandas tinha levado um pouco mais que o esperado, mas era hora de começar. Era Repúdio. Crossover. Zumbi (voz) Kafé (uma les paul dourada muito foda) Chuva (baixo) e Dagotta (bateria) foram os responsáveis pelo start. Com uma intro pesadona com o trio rasgando, e “Imundo Genital”. A primeira música da noite gritando agressivamente sobre a imbecilidade do estupro, só para você ter ideia.

Ainda não tinha muita gente, mas já tinha gente cantando. Repúdio é uma banda presença do hardcore, com muitos amigos e fãs sempre para dar a moral. E para dar o clima de amizade ao show também. Lá ia Repúdio Crossover descendo o cacete no palco maleável da Planet. A homônima “Repúdio”, e porrada. “Medo da Verdade”, e porrada. Poguinho se formando e as cervejas vazias começando a se acumular na beira do palco.

E o Zumbi chamava a galera, batia cabeça, rolava no chão, e tomava gelada, e sentia o joelho. Enquanto o Kafé se concentrava ali, nas guitarradas dele, tranquilão tocando HC como se estivesse escovando os dentes. Aí veio uma versão, e não um cover, de “Terror Declarado”. RDP na bucha!  O hardcore ácido e pesado do Repúdio abriu muito bem os trabalhos, enquanto nosso fotógrafo (que no caso ontem era eu mesmo) vibrava pela melhora na iluminação da casa. “Punição” e o “Sergipano do Olho Amarelo” fecharam o primeiro show da noite. Repúdio Crossover Rio de Janeiro.

Pausa, mudança no palco, muito Cólera no DJ. Momento de trocar ideia com os amigos e bandas, sentir saudade dos tempos de birita, e fazer fotos comprometedoras da galera. Os entre-shows são alguns dos meu momentos de entretenimento favoritos.

Pós-Sismo por: Vitor Malheiros - @vcmalheiros

Pós-Sismo por: Vitor Malheiros – @vcmalheiros

Logo em seguida, o tapa monstro da noite. Quando cheguei à beira do palco para clicar, cocei a cabeça, fiz cara de mongol e perguntei “cadê o baixista”? Não tem! Test Grindcore não precisa de baixista, simplesmente isso. João no vocal/guitarra e Barata na bateria dão conta da barulheira eles mesmos. Grindcore violento e muito técnico. Que sai de um processo de criação louco. Depois de criar a base musical, João e Barata passam as músicas paras amigos colocarem as letras. Por causa desse método, tive um dos diálogos mais loucos da minha vida, quando perguntava os nomes das músicas para o baterista, e ele me olhava com uma cara de “Não sei mesmo cara…não memorizo as músicas por nomes”.

Portanto, se vocês quiserem saber o que eles tocaram no show “Procura Test Grindcore no Youtube, que lá você acha tudo”. Aí vocês podem conferir a viagem muito interessante de som que é a dessa dupla. Onde a bateria tem um papel fundamental, em que as pausas fazem toda a diferença na levada, e onde o cabelo do João é uma ameaça à integridade física de quem passar perto. Chicotadas de guitarra metal. Ver o Test e a técnica do Barata ao vivo, foi uma puta revelação para mim. Da próxima vez que for a São Paulo vou procurar a kombi barulhenta dos caras.

Pausa dois. Enquanto isso uma mina transtornada toca o terror na casa, invadindo e sendo botada para fora, fazendo bunda-lelê na cara de geral, e fazendo o segurança da casa demonstrar sua veia zen. A menina atentou, viu!

Pós-Sismo no palco. Isso sim é underground, bicho. Aquela velha história de amigos que se juntam para fazer um som, e fazem não importa o que aconteça. Formações vão e vem, mas eles continuam juntos. Esses são o guitarrista Dentinho e o vocalista Maizena. Desde 2000 na pista, com algumas demos gravadas, tudo no maior estilo DIY-amor-ao-metal. Alguns hiatos de intervalo nesses 13 anos, e ontem lá estavam eles para abrir o show de uma de suas referências. “Finlândia é com a gente mesmo!”, dizia Dentinho.

Juventude Maldita por: Vitor Malheiros - @vcmalheiros

Juventude Maldita por: Vitor Malheiros – @vcmalheiros

E quando eles subiram ao palco ao lado do baixista Bode e do baterista Cativeiro, eles botaram isso à prova. Guitarras e baterias rápidas, e aquele clássico vocal arrotão saindo do Maizena com sua barriga grande e sua camisa do Joy Division. Crust core animal, com um baixão também muito pesado e composições próprias. “Mate Pelo Seu Deus” abre a desgraceira, e a onda segue nessa linha. “Vivendo no Inferno”, “Sementes do Colapso”, “Homenagem aos Assassinos”. Só positividade e amorzinho, porque o mundo é perfeito. Tão perfeito que a corda do baixo arrebentou, e lá foi o Bode trocar enquanto o Zumbi subia ao palco para uma canja descompromissada com a galera.

O final do show do Pós-Sismo foi uma viagem nostálgica crazy que me pintou do nada. Quando eu era garoto, a imagem que eu tinha da podridão extrema em forma de música e comportamento, era exatamente aquilo ali na minha frente. O lugar onde eu estava, o som que estava tocando, com pessoas maneiras no palco e ao redor. Então tá né.

Intervalo três e fiquei sabendo que tinha poças de bosta no banheiro feminino. Juventude Maldita. Não a que cagou no banheiro, mas a banda de São Paulo que está acompanhando o Rattus. Punkrock brasileiro de raiz. Paulistano, bêbado, e acelerado. Demente (guitarra/voz), Junior (baixo/voz) e Kardec (bateria) fizeram um show emocionado pela força da data de ontem. Dois anos da morte de Redson, grande mestre do punk brasileiro. Ídolo e amigo dos caras. E que com certeza deu muita energia ao som na noite de ontem.

Os jovens malditos são protesto puro. “Para as Barricadas”, “Resistência Antifascista”, “Não, Não Não” são alguns dos títulos, por exemplo. Sempre cantados com muita agressividade e participação da galera. O pogo já era uma constante, e a pilha de latas no palco tinha virado castelinho na diversão da galera. A casa já estava com um público maior, e o som continuava no talo, com o técnico quicando pra lá e pra cá depois de torcer o tornozelo no meio da correria.

Como não poderia deixar de ser, muita memória ao Redson, em um final com um par de Cóleras para a galera cantar junto. A Deise, grande responsável pela noite de ontem, se emocionava e também cantava do fundo do palco.

Rattus por: Vitor Malheiros - @vcmalheiros

Rattus por: Vitor Malheiros – @vcmalheiros

Na pausa quatro, enquanto o baterista se aquecia na parede pichada do backstage, alguém gritava e dava a dica “são 4h20 da manhã aí rapaziada!”. Rattus prontos para subir ao palco e fazer meu queixo quicar no chão.  A começar pelo Rickenbaker vermelho alucinante do baixista Tomppa. Só ele parado já fazia um show, não precisaria nem bater nas cordas. Aí tu olha pro vocal/guitarra Jopo, o jovem da banda, e vê um gringo de rasta e adesivos canábicos na Les Paul branca. “Esse cara é meio biruta”, eu penso. E mal sabia o que viria quando o som começasse. Logo atrás, o baterista VP. Um amigo que viu o show no Rio em 2007 me dizia uns dias antes “se liga no baterista”. Novamente, mal sabia eu o que iria ver.

Na hora que VP se posicionou e colocou um microfoninho estilo Sandy&Júnior, ele virou tipo um ogro da bateria, e era hora de bater cabeça. Rattus pros punk doido. A voz do Jopo é ogra também, algo entre um punk rasgadão e um gore decifrável. Quer dizer…decifrável se o idioma não fosse o finlandês. O que será que esses caras tem no sangue para terem a cultura do som punk tão forte? Sei lá, acho que deve ser o frio, bicho. Vikings do punk ha ha ha piada óbvia.

De um jeito ou de outro, os 35 anos de punk celebrados nessa tour, não são para qualquer um. Ainda mais com a potência descarregada no palco. O Tompaa parece um tiozão da secretaria, e também faz o punk dele como se fosse tomar mingau. Paradão, fazendo os backs, enquanto o Jopo pira de um lado para o outro sacudindo os dreads, e o VP simplesmente mói a bateria. Moer, do verbo triturar e transformar em pedacinhos, ao mesmo tempo que roda a baqueta do hi-hat nos dedos. E cantando. E suando pra caralho, já sem camisa.

Rattus por: Vitor Malheiros - @vcmalheiros

Rattus por: Vitor Malheiros – @vcmalheiros

Sobre o set, grandes fãs do Rattus, é aquela coisa, né. Alguém aí sabe ler finlandês? Consegui as fotos do set, e até tive ajuda para decifrar algumas músicas que não fossem Rattus on Rauta, que rolou lá no final. Eles abriram com “Viina ei Petä”, seguindo de “Kuningas”.

Olha só. Hoje quando acordei, tive que deixar um recado de agradecimento para a Deise, pela oportunidade de ver essa banda ao vivo. Foi uma das coisas mais impressionantes de punkrock em que meus olhos já bateram. Se eu achava que Suicidal Tendencies no Circo tinha sido catártico, o show do Rattus ontem bateu de uma forma que se não fosse a câmera e a dor de cabeça destruidora que já me pegava àquela altura, eu estaria roxo de pogo hoje. Muita energia, muita guitarria, uma bateria de metralhadora. O VP é um show à parte.

“Ihmiset on Sairaita”, “Uskonto on Vaaara”. É uma doideira só. Prestar atenção já havia ficado em segundo plano. O som te pega mesmo que você não queira. Do lado de fora, inclusive, fumando um cigarrinho, dando um tempo pros ouvidos, vendo algumas fotos e tentando decifrar os nomes das músicas. Rolou “Rajoitettu Ydin” e, quando se ouvia o grito “Rattus on Rautaa”, chegavam as tais 5h07 da manhã, e eu percebia: acabou.

Confira mais fotos aqui   

Texto e fotos por: Vitor Malheiros – @vcmalheiros

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