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Sexta-feira no Rock Together: Que fim levou Valdir?, List e MagüeRbeS – Por: Gabriel Coiso

Punknet | 05/03/2017 | Comentários desativados em Sexta-feira no Rock Together: Que fim levou Valdir?, List e MagüeRbeS – Por: Gabriel Coiso | Matérias

Comecemos com a sexta. No ciclo de rotações da terra, apenas mais um giro ao redor de si mesma, no calendário semanal da exploração assalariada, as portas de uma breve salvação. O início de um curto período de pouco mais de 54 horas em que se pode sobreviver (em teoria) sem levar tapas na cara do patronato.

Passemos ao Rock Together, um ‘Pico Louco’ aqui em São Paulo. Basicamente é um estúdio para ensaios e gravações que também abre as portas para shows, tanto na unidade da Rua Doutor Zuquin (pertinho do Metrô Santana) quanto na unidade próxima ao Metrô Tatuapé – a envolvente história que conto adiante se passa na unidade Santana.

Corredores estreitos, um quintal frontal, salas bem equipadas, banheiro espaçoso. Tudo decorado com uma infinidade de cartazes de shows, festivais e adesivos de bandas. Espaço para poucas pessoas, bebidas baratas (R$6,00 uma longneck ‘no rolê’ é pra glorificar de pé) e bancos de madeira para descansar as pernas. Se atualmente rola uma tendência de fazer shows em locais pequenos, afastados do centro e para poucas pessoas, creio que aqui em São Paulo o Rock Together tem bom protagonismo nisso.

A minha sexta-feira não estava muito boa não, para falar a verdade. Por estar fora da lógica da exploração assalariada, para mim era só mais um dia de desemprego a girar ao redor de si mesmo (ou de mim mesmo). Passei o dia a elaborar novos e mirabolantes planos para resolver essa situação a partir da próxima segunda-feira – dia tão malquisto no calendário da exploração assalariada.

IMG_2342Inclusive, eu estava sentado em uma das cadeiras no quintal da casa pensando nisso quando um dos rapazes da “Que fim levou Valdir?” me deu um tapinha nas costas e falou: “Vamos começar”. E começaram mesmo: “A minha vontade é enfiar um prego em seu olho, e ver você sangrando sem saber aonde ir”.

Sujeira, velocidade, afinações graves, vocais gritados, guturais, caras feias, cabelo na cara, paulada no pé da orelha. Tocaram na íntegra o “Brasilândia Democracy”, álbum gravado em 2012, no próprio Rock Together, e lançado em 2015. Bandaça para quem curte Hard Core e Stoner com uma pitada a mais de agressividade, showzaço para quem gosta de descarregar sensações ruins com barulho bem feito.

IMG_2328Em seguida subiram ao palco, quer dizer, como o show era no estúdio, não tinha palco, apenas um palanque para a bateria, tudo na base da horizontalidade mesmo, e a segunda banda a tocar foi a “List”, de São José dos Campos.

O nível técnico dos jovens é muito refinado, uma banda composta por integrantes que manjam bastante daquilo que estão fazendo: o rapaz que toca baixo domina as quatro cordas e a sua vistosa pedaleira; o jovem que toca guitarra procura e acha timbres saborosos; o que segura as baquetas entende muito bem de como construir e manter os ritmos, além de tocar com firmeza; e o jovem que canta, rapaz, que voz, passeia entre o “Melódico lírico de igreja” e o “Gutural ogro de grindcore” sem dificuldades ou desafinadas.

E eles fazem tudo isso com muitos sorrisos e mesclando diversas referências musicais: “Esse som está me lembrando Helmet, mas agora que entrou outro rapaz para cantar de maneira mais marcada no tempo tem uma pegada mais pro Rap mesmo, só que agora me recorda o bom e velho Hard Core Melódico…”.

Depois de uma sessão de porradaria e uma de calmaria, veio uma mescla de ambos, com os bonitos do MagüeRbeS. Mensagens positivas cantadas com vivacidade e energia.

IMG_2335O Haroldo, eterno jovem que canta, é responsável por criar um clima de descontração, de destruição da lógica hierárquica do “Palco vs. Plateia”. Vivenciar isso na “Sala C” do Rock Together foi bem gostoso, pois, como já disse, foi tudo na base da horizontalidade. Os rapazes com os instrumentos criam o ambiente perfeito para toda a espalhafatagem, circulação de energias, trocas de olhares e plenos momentos de “Vidão”, inclusive entre eles: não tem coisa mais sincera do que ver os músicos trocando sorrisos enquanto tocam.

Setlist de ótimo tamanho – embora “Linha verde”, uma das minhas favoritas, tenha ficado de fora – catorze faixas tocadas com alma e em 50% do tempo cantadas olho no olho, boca a boca com o pessoal além banda (seria um crime diferenciar as pessoas ali em “Banda” e “Público”).

Que conjunto musical! Mas sou suspeito para falar, pois tenho para mim que o “Futuro”, álbum que lançaram via Hearts Bleed Blue em 2015, está entre os melhores trabalhos do Rock & Hard Core nacional dos últimos anos – sério, pegue o CD físico, é um trampo muito fino em termos musicais, visuais e plásticos. E, ao ver essa apresentação deles, ousaria dizer que é uma das grandes bandas do cenário atual.
A sexta estava ruim? Estava estranha? Fica aqui o registro de como três bandas e um lugar bacana fizeram um murcho dia se tornar numa grandiosa “Hoje é sextaaaaaaa”.

Texto e fotos: Gabriel Coiso

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